Consciência e barbárie

 No dia da Consciência Negra, as manchetes do dia trazem mais um episódio bárbaro como para nos lembrar dessa chaga que consome a alma brasileira. Mais um homem negro é assassinado a sangue frio por forças de segurança. Mais uma vez foi em um supermercado, desta vez situado na zona de Porto Alegre. Poderia ter sido em um beco de uma favela carioca ou paulistana, por ação do aparelho repressor do estatal.

Muda-se eventualmente o cenário. Mas o personagem parece ser preferencialmente o mesmo: negro. Como negro era João Alberto Silveira Freitas, 40 anos, casado, morador de Vila Farrapos e espancado até a morte em uma unidade da rede Carrefour da capital gaúcha.

As circunstâncias da morte de Freitas nos remetem ao assassinato George Floyd, negro de 46 anos, morto por policiais bancos no estado de Minnesota, nos Estados Unidos, conforme vídeo colhido pelas pessoas que presenciaram a cena.

O grau de selvageria daquelas cenas que viralizaram o mundo daquela vez está ali presente, confirmada por testemunhas, assim como razões pueris que cercam um evento e outro – no caso americano, Floyd foi acusado de supostamente pagar uma conta com uma nota falsa de 20 dólares.

Em Porto Alegre, o caso teria sido desencadeado depois de desavenças com a caixa da loja, e a partir daí Freitas acabou conduzido para o estacionamento do supermercado onde o massacre se deu, comandado por dois seguranças – um deles PM, que cumpria o seu primeiro dia de “bico” no estabelecimento.

Consta entre as versões registradas pela mídia que os seguranças teriam reagido depois de Freitas socar um deles. O governador gaúcho Eduardo Leite e as autoridades locais falam em investigar o caso a fundo. Que fique claro: Nada, mas nada, para o que foi descrito há atenuante.

Tem se matado – especialmente negros, conforme mostram estatísticas – com base em protocolos de almanaque e até pelo simples prazer de almanaque. Pra começar o que tem que ser revisto é a negligência do Estado e legislação permissiva.

O policial militar que matou Freitas era temporário, uma categoria jaboticaba da PM riograndense, e, pelo que se sabe, sem treinamento algum para atuar como segurança.

Celebrar o Dia da Consciência Negra é antes de mais nada refletir sobre o estado de barbárie em que vivemos.          

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