Jair e o apagão nosso de cada dia

O Ministério Público quer que o TCU abra investigação para apurar o caso de vencimento do prazo de validade de quase 7 milhões de kits para testes de Covid 19.

Conforme publicou o Estadão, todo o material. avaliado em 290 milhões de reais, está estocado há meses em um galpão do Ministério da Saúde, em Guarulhos, na Grande São Paulo.

Os kits vencem entre dezembro janeiro do ano que vem. E agora o ministério tenta acertar com o fabricante uma prorrogação do prazo de validade antes que sejam descartados. Certamente se estivesse em alguma baia e um supermercado estaria à venda a preço de ocasião.

Consta que para que esses kits sejam devidamente utilizáveis há necessidade ainda de um reagente, que falta entre os itens estocados. Eles dependem também de condições especiais de acondicionamento e transporte. Em síntese, uma logística não prevista pelo ministério.     

O subprocurador que assina o pedido alega o seguinte: “Como era de se esperar, a causa dessa inércia e desse desperdício não é segredo para ninguém. Trata-se da inépcia do governo federal, sobretudo do Ministério da Saúde —cujo ministro não é da área—, no que diz respeito ao planejamento e logística de distribuição para a rede pública de saúde, bem como das medidas necessárias para a aplicação dos testes.”

O capitão mais uma vez tentou tirar o corpo fora e jogou a culpa pelo novo apagão da saúde no colo de governadores e prefeitos: “Foi enviado para Estados e municípios. Se algum estado ou município não usou, deve explicar seus motivos.”

O general Pazuello, aquele que por convicção e respeito hierárquico normalmente obedece ao que o capitão manda (“simples assim”) preferiu bater em retirada. Pazuello, como se sabe, foi guindado ao posto, por sua notória expertise em logística.

É a esse ministério desse governo que caberá tarefa de empreender um programa de vacinação em massa.

Fim do breu?

E fez-se a luz no Amapá. Foram 22 dias em que o Amapá foi mandado de volta de volta ao século 19. Nesta

madrugada a Linhas de Macapá Transmissora de Energia finalmente conseguiu restabelecer a energia em dois transformadores de uma subestação derretida por um incêndio. O terceiro, que já não funcionava havia um tempo, ainda ficará para as calendas.

O infortúnio de uma vida em meio ao caos e toda sorte de privações não parece ter sido tema capaz de abalar as colunas do Palácio do Planalto. Mas no sábado (21) o capitão zarpou em comitiva para Macapá como para um evento histórico. Em cerimônia solene apertou o botão de ativação dos geradores que trariam a energia de volta aos amapaenses três dias depois.

O capitão Jair já chegou arrepiando à capital do Amapá, saudando a população com o corpo pra fora do carro que o transportava em carreata oficial. Em resposta teve a recepção normalmente dedicada aos juízes de futebol e suas progenitoras ao pisar no gramado.

Pela gravidade da situação, Bolsonaro abandonou antecipadamente a reunião virtual do G20, que trataria sobre pandemia, para fazer a gambiarra em Macapá. Já Trump, também ausente, optou por jogar golfe.

A floresta sou eu

No domingo, já de volta à cúpula do G20, Jair teve mais uma chance de desfiar a sua verve negacionista. Diante dos chefes de Estado e ministros dos países que a compõem, o capitão defendeu sua política ambiental, esgrimindo números e dados, e comprometeu-se a continuar protegendo a Amazônia, o Pantanal e demais biomas brasileiros.  

“O que apresento aqui são fatos e não narrativas. São dados concretos e não frases demagógicas que rebaixam o debate público e, no limite, ferem a própria causa que fingem apoiar.”

Há uma ideia calcada no descompasso do discurso e dos atos que embasa a teoria de Pinel. Mesmo para uma mente perturbada como a do capitão e predisposta ao confronto e ao jogo reles do poder, isso já não basta.

Para Jair e seu séquito fardado a questão ambiental se resolve pela disputa de versões e narrativas.

Não, não. Dessa vez ele não ameaçou usar a pólvora.

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