Agenda fora do tempo

A Folha perguntou em sua seção Tendências/Debates, na edição deste sábado (28), aos dois candidatos de segundo turno, Bruno Covas e Guilherme Boulos, se São Paulo deve trocar de prefeito?

Os textos assinados por ambos seguem à risca o receituário traçado por suas assessorias e que vimos repisado à exaustão durante os programas eleitorais e nos debates pela tv. O tucano defendendo a ideia de que “a experiência faz a diferença” e psolista argumentando que um aprendizado de “20 anos no movimento sindical” e a vivência na periferia como morador não se equipara “a de um mandato parlamentar”.

E por essa rota tentam pescar os votos de última hora de indecisos – segundo a pesquisa do Datafolha deste sábado, um contingente nada desprezível correspondente a 13% do eleitorado, metade dos quais podendo reverter o voto tanto para um como para outro.

O que chama a atenção de cara é que nenhum dos dois, no espaço reservado de cerca de 3500 toques, sequer menciona a questão ambiental e seus diversos aspectos entre as prioridades de suas políticas públicas. E estamos falando de uma megalópole complexa, altamente populosa e de profundos abismos sociais. Dissocia-los de uma variante ambiental visando a construção de um projeto para são Paulo soa absolutamente contraditório.

Ainda assim a tônica dos textos foca estudadamente na gestão e desigualdade. Covas diz que em dois anos e meio de mandato “orientou todas as nossas (suas) políticas numa única direção: reduzir a desigualdade. Talvez quisesse expressar uma homenagem ao avô, Mario Covas.

E elenca “suas conquistas” na educação básica, na habitação, na mobilidade e na segurança e aposta no “diálogo e no equilíbrio para construir consensos e dar respostas.”      

Boulos rebate que “irresponsabilidade social, verificada na condução da pandemia pela gestão Covas-Doria, “só fez ampliar o abismo”. Diz que vai “aliar sensibilidade social à experiência gestão de Luiza Erundina”, sua vice.

E promete alavancar programas de transferência de renda, como o Renda Solidária, garantir habitação para 100 mil famílias e investimentos maciços na área de saúde, com reabertura de hospitais e contratação de equipes médicas.

Prevê para seu projeto alocar 29 bilhões de reais em quatro anos de eventual mandato. E conta com 19 bilhões de caixa, segundo ele, parados na administração municipal.      

Se há algo que chama a atenção pela omissão, um tema de relevo ausente em eleições, sobretudo por se tratar de municipais, é o da questão racial. Movidos pelos episódios recentes que tem mobilizado segmentos da população, ambos enfatizam a necessidade de traçar políticas, ainda que seja algo de difícil tratamento pelo seu caráter estrutural.

De resto fica a sensação de estarmos debatendo a agenda de sempre. Entramos na terceira década do século 21, os efeitos do aquecimento global se avolumam e as questões ambientais, particularmente urbanas, continuam escanteadas. Perdemos um tempo que já não temos ao nosso lado. E, como sabemos, quem mais têm a perder são os vulneráveis que a retórica eleitoral aponta como prioritários.

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