A lógica do caviar e do hotel boutique

Em um só golpe, Dória pretende demolir um marco do patrimônio histórico, cultural e arquitetônico de São Paulo e jogar na lona o já combalido esporte brasileiro. O governador paulista quer transformar o Conjunto Desportivo do Ibirapuera, cartão postal da cidade de São Paulo e expressão do esporte nacional, em mais um empreendimento comercial.

Repassada à iniciativa privada, o Complexo será rebatizado de Ibirapuera Complex, algo talvez edificado para condizer com a sua Caviar Lifestyle – antiga publicação anual de seu portfólio de negócios, voltada a um mercado de desnecessária adjetivação.

O complexo esportivo, nominado Constâncio Vaz Guimarães, começou a ser erguido em meados dos anos 1950, por ocasião do quarto centenário de fundação da capital paulista, e está integrado ao parque do Ibirapuera, um colosso de 1,5 milhão de metros quadrados encravado em uma área das mais nobres da cidade.   

O conjunto é formado por um parque aquático, incluindo uma piscina olímpica e outra semiolímpica, um estádio que conjuga futebol e atletismo (originalmente dispunha também de um velódromo) e um ginásio poliesportivo, cuja edificação é a cereja do bolo do complexo.

É assinado por Ícaro de Castro Melo, arquiteto, urbanista e também atleta, participante da Olimpíada de Berlim, em 1936, e responsável por uma infinidade de outros projetos de conjuntos e sedes esportivas, no país e no continente.

Dá pra imaginar a série de eventos de que esse ginásio e estádio foi palco em pouco mais de 60 anos de vida, a começar pela conquista do título mundial dos pesos galo por Eder Jofre, em1962. Sediou ainda os Jogos Panamericanos de 1963, três campeonatos de basquete feminino, finais de basquete masculino, vôlei, handebol. Passaram por suas quadras de atletas em formação aos grandes nomes do esporte nacional.

Só pelo histórico, deveria ser cultuado como um monumento dedicado ao esporte, à formação de novos atletas e reverência aos que lá escreveram suas conquistas. Não para João Dória e sua lógica de mercado.

A trama contra o Conjunto Esportivo do Ibirapuera começou a ser maquinada em abril do ano passado, quando Dória alterou por decreto a composição do Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico) do Estado, reduzindo a representação das universidades e tornando-a instituição chapa branca.

Bingo! Agora, no final de novembro o Conselho rejeitou o pedido de tombamento, abrindo espaço para a concessão do complexo, já aprovada pela Assembleia Legislativa a toque de caixa no ano passado.

A pérola sonhada por Dória está na boca do forno. O edital de concessão prevê a demolição do estádio e parque aquático e a construção de duas torres em seu lugar – uma delas destinada a um hotel –, e a transformação do ginásio em um shopping.

Como se vê o estratagema utilizado para embasar bens do patrimônio público tem método e inspiração. O expediente foi utilizado pelo sinistro Ricardo Salles, que desconfigurou da mesma forma o Conselho do Meio Ambiente para romper a legislação de proteção a manguezais e restingas – depois recuperada na Justiça.

Aliás, o próprio Salles acaba perpetrar mais uma contra a patrimônio histórico e ambiental do país, ao anunciar a intenção de repassar à inciativa privada o prédio, datado do século 19, que abriga o Museu do Meio Ambiente, no Jardim Botânico, no Rio. A ideia é transformar o espaço algo na linha de um hotel-boutique.

Esses são só dois exemplos de extermínio do patrimônio público nacional. Há outros em curso pelo país afora. A sanha privatista não tem limites nem faz distinção. É a lógica do caviar e do hotel boutique

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