Entre a imunidade e a insanidade

A semana termina para os brasileiros com uma ponta de esperança, pelo início da vacinação no Reino Unido, e outra de pesar por se ver como joguete de uma disputa política insana. E o resultado disso é que não sabemos quando teremos acesso à imunização e em que condições.

Os desdobramentos da situação que assistimos com incredulidade, no fundo, não surpreende, dada a condução que o desgoverno de Jair Bolsonaro tem conferido à pandemia, marcada por uma overdose que combina negacionismo, incompetência, indigência, diversionismo, oportunismo e sabotagem.

Charge Evandro Rodrigues

Acossado pelas imagens da vacinação de britânicos que correram o mundo e pelo calendário imposto por Dória para início do processo em São Paulo (25 de janeiro), o capitão mandou o gorducho general Pazuello, que tem como missão devotado servilismo a seu chefe, para a frente de combate.

Em reunião com governadores, que foram cobrar um plano nacional de imunização, Pazuello falou grosso, confrontou Dória, mas tudo que conseguiu sinalizar foi que não há plano algum, assim como faltam seringas e agulhas, algo que sua logística de caserna infelizmente não previu.

Sobre a vacina produzida pelo Butantan, em parceria com a farmacêutica chinesa de São Paulo, deliberadamente omitida dos planos de ação do Ministério da Saúde (com a qual havia firmado compromisso de compra em outubro e voltou atrás, depois de desautorizado pelo chefe), o general preferiu adotar o papel de mercador de vidas: interessa “se houver demanda e se houver preço.”

De acordo com o cronograma de Pazuello a previsão para o início de um processo de imunização para brasileiros só aconteceria em 90 dias, ou seja, lá para março ou abril. Por que? Porque a vacina em que o governo do capitão apostou produzida pela farmacêutica AstraZeneca em parceria com a Universidade de Oxford registrou falhas na fase de testes, que redundaram em atraso.

Logo, ficou claro que a saída seria empurrar a vacinação para as calendas, como se fosse possível manobrar com. Mas foi então que vacina americana da Pfizer, a mesma que até então havia sido recusada pela trupe do Planalto, veio para atropelar seu intento facínora.

E de um dia para o expediente e fanfarrão ajudante de ordens Pazuello veio a público anunciar ainda para dezembro a aplicação das primeiras doses do imunizante da Pfizer – informação logo desmentida pelo laboratório, que não evidentemente não tinha condições de cumprir compromisso de última hora.

Já o capitão, encastelado no Planalto, sacou as armas de que dispõe um estadista de seu porte, diante de situações críticas como uma segunda onda da Covid, que já volta a assombrar o país: zerou as alíquotas de importação para revólveres e pistolas e inaugurou solenemente exposição que ele e a primeira-dama usaram em sua posse.

Nesta sexta (11) dois fatos pontuaram a corrida demencial em que se transformou um processo pelo qual deveria haver celebração planetária. Em carta aberta, técnicos da Anvisa precisaram vir a público para reafirmar sua independência. E Jair, pra fechar sua semana, embalado pelos ventos dos pampas, subiu no palanque para proclamar que a pandemia “estamos vivendo o finalzinho da pandemia.”

Para casos do gênero, há dois caminhos: código penal e camisa de força. Bolsonaro tem ambos no horizonte desde que assumiu a presidência. O país precisa vencer não só isolamento social, mas também a inércia. E rápido.

Só pra registro: nessa mesma sexta o Brasil esbarrou na marca de 179 mil mortes e 6,7 milhões de infectados.

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