Arapongagem da Abin espalha-se pelos Ministérios

Nesta terça (22) ficamos sabendo pelo Uol que o general Pazuello, aquele que diz sim e por isso foi escalado para comandar o Ministério da Saúde, nomeou em agosto passado um integrante da Abin (Agência Brasileira de Inteligência), para a coordenação-geral do Complexo Industrial de sua pasta.  

Consta que o agente Myron Moraes Pires ficará encarregado pelas ações de compra de tudo a que se refere ao combate à Covid, incluindo imunizantes e insumos. Não bastava o staff de milicos de pijama que tomou conta do ministério.

Pela lógica de Pazuello, faltava a seu almoxarifado uma ponta de “intelligentsia”. De acordo com a reportagem, há um “clima de terror” interno pela condição de neófito do novo contratado. Sinal de o bate-cabeça vai continuar e que desaguou no tal plano nacional de imunização meia-boca.        

Apesar de espantosa, a nova não surpreende. A Abin tem cruzado as fronteiras de seu papel institucional, extrapolando a denúncia de envolvimento como consultora informal no caso das rachadinhas, de que é acusado o 01 Flavio Bolsonaro.

Sua ação se espraia por toda a Esplanada dos Ministérios, com agentes plantados e dedicados à tarefa de espionar adversários políticos e organizações não-governamentais contrárias às políticas do capitão Jair, como registra Vasconcelo Quadros, em matéria investigativa para A Pública.

Segundo a reportagem, a arapongagem envolve uma centena de agentes em ministérios-chave como Infraestrutura, Casa Civil, Saúde e Economia. O que seria um órgão de Estado, a Abin passa à condição de puxadinho do governo para aplacar a nóia e tirania de seu chefe supremo.

Tudo teria começado com o que A Pública classifica como “episódio surreal”. No mesmo mês de agosto teria sido nomeado um agente identificado com a matrícula 910004 para coordenador-geral de Articulação com Organizações da Sociedade Civil do Departamento de Relações com Organizações Internacionais e Organizações da Sociedade Civil da Secretaria Especial de Articulação Social da Secretaria de Governo da Presidência da República. O título para a função é esse mesmo. Na prática: tentativa de institucionalizar a espionagem.  

A jogada veio depois que o Congresso alterou a tal MP das ONGs (MP 870), impedindo o passe livre da Segov,  do general Luiz Eduardo Ramos, para monitorar e controlar as atividades das ONGs. O capitão então mandou criar uma secretaria dentro da Segov, com a missão de fazer a interface entre ONGs e seu governo. E por força de uma decisão da Justiça Federal de São Paulo, o agente de número 910004 materializou-se no oficial de inteligência da Abin Rafael Augusto Pinto.

Esse mesmo expediente de nomeações camufladas (no governo de Jair há uma predileção irrefreável por números) seria adotado várias outras vezes pela pena e obra de ex-fardados do Planalto, como o general Walter Braga Neto, ministro-chefe da Casa Civil, e Augusto Heleno, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional.

As ações, alvos e desdobramentos da política de aparelhamento do Estado por agentes da Abin estão todos relatados detalhadamente na reportagem de A Pública. No momento, além da nefasta e crescente ação da arapongagem via Abin, o que faz a batata do capitão assar – assim como do general Heleno e do chefão da Agência, Alexandre Ramagem –, é o caso das rachadinhas que envolve o 01. A ministra Carmem Lúcia do STF jogou no colo da Procuradoria Geral a investigação do caso.        

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