Daniel de quê? Já vimos esse filme

General Villas Boas, conversa com o comandante, o livro do professor da FGV, Celso Correa Pinto de Castro, chega ao mercado turbinado por um fato pretérito, na época de ampla repercussão na mídia e com potencial de gerar uma crise institucional.

Resultado de 13 horas de entrevistas, o livro se propõe a traçar a história de vida do general, condensando suas memórias desde suas origens até enveredar-se a uma análise política ao período em que esteve no comando do exército brasileiro – e que abarca os mandatos de Dilma Roussef e Michel Temer, estendendo-se até a posse de Jair Bolsonaro.

Mas o que fez a publicação voltar as páginas dos jornais foi um tuite publicado pelo general, por ocasião do julgamento de um habeas corpus impetrado pelo ex-presidente Lula, em 3 abril de 2018, agora redimensionado por nova e surpreendente revelação: Villas Boas contou com a colaboração de “integrantes do Alto Comando” na elaboração da publicação.

Assim, o que se imaginava ser uma ação independente do então comandante do Exército, como pressão sobre o STF, ganhou contornos conspiracionistas assumidos por um comando contra a ordem legal vigente. A partir, daí o que vemos uma escalada de um embate entre Exército e STF, que só expõem o pântano institucional que vivemos desde a ascensão bolsonarista ao poder.

Assim postou Villas Boas à época: “Nessa situação que vive o Brasil, resta perguntar às instituições e ao povo quem realmente está pensando no bem do País e das gerações futuras e quem está preocupado apenas com interesses pessoais? Asseguro à Nação que o Exército Brasileiro julga compartilhar o anseio de todos os cidadãos de bem de repúdio à impunidade e de respeito à Constituição, à paz social e à Democracia, bem como se mantém atento às suas missões institucionais.”

Villas Boas justificou o post alegando que temia “extravasamento da indignação” de alguns grupos e que “pessoal interno” do Exército sentia “ansiedade semelhante”. Mas que a mensagem só tinha a intenção de emitir um “alerta, muito antes que uma ameaça.”

Disse ainda que o “público interno” da Força tinha “ansiedade semelhante” e acrescentou que o objetivo do tuíte era “um alerta, muito antes do que uma ameaça”.

O ministro Edson Fachin, relator do HC de Lula em processo que poderia livra-lo da cadeia — e não livrou — não engoliu o malabarismo linguístico e reagiu: “Intolerável e inaceitável”, declarou sobre “qualquer tipo de pressão injurídica sobre o Poder Judiciário.” “Atenta contra a ordem constitucional”.

Villas Boas voltou à carga e desdenhou (“Três anos depois!”), secundado outro general, Sérgio Etchegoyen, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional do governo Temer, quando o post foi publicado originalmente: “Será que algum brasileiro de bem, inclusive os membros do Supremo, pensa diferente? O tuíte do então comandante do Exército está em português claríssimo” (…) e “jamais teria a força de intimidar algum ministro do STF ou mesmo modificar seu voto, a menos que tivéssemos juízes covardes na nossa Suprema Corte, o que está fora de questão”, completou, mantendo o tom provocativo.

Portador de doença degenerativa neurológica, o general Villas, assim como seus companheiros de farda e estrela, deveria primeiramente se lembrar da reação do então decano do Supremo, quando do julgamento do HV de Lula, e assimilar os termos de sua fala como preceitos republicanos a serem seguidos sob a forma , este sim de um alerta insofismável. “O respeito indeclinável à Constituição e às leis da República representa o limite intransponível a que se deve submeter os agentes do Estado, quaisquer que sejam os estamentos a que eles pertencem”, e chamando a atenção para “práticas lesivas à ortodoxia constitucional.”

E depois abrir mão do deboche e fazer um mea culpa à nação pela aberração arquitetada por ele e seus pares na condução de Bolsonaro à presidência. e mais não fosse, bastaria ver emergir, como resultado desse embate, a figura ignóbil (Daniel de quê?) travestida de deputado federal para exaltar ao AI5 e mais uma vez atentar contra Supremo e o Congresso — os termos são dispensáveis pela baixeza.

É preciso mais? O que se espera da Câmara, depois da prisão em flagrante determinada pelo STF, é a cassação do mandato do cidadão. E dos generais, a percepção do que está em jogo e a clara opção pelo lado que vão se posicionar.

Já vimos esse filme.

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