Brasília e os mortos

Nesta quarta-feira o país anotou a marca funesta de um quarto de milhão de brasileiros mortos pela Covid 19, além de um saldo de mais de 10 milhões de infectados. A data marcou também o registro do primeiro caso oficial da doença. Mas enquanto o mundo (ou pelo menos a sua parte mais privilegiada dele) começa a ver sinais de abrandamento da situação com o avanço da vacinação combinada ao isolamento social, o Brasil mergulha em uma atmosfera sombria.

Há mais de um mês, o país mantém média móvel acima de mil mortos. Em várias cidades e capitais, o sistema hospitalar está à beira do colapso por falta de leitos. As variantes do coronavírus se multiplicam e pipocam de norte a sul, enquanto os programas de vacinação são suspensos por falta de vacinas. Não há insumos, oxigênio, seringas e drogas utilizadas nos procedimentos empregados em UTIs.

Mas em um processo típico de alheamento patológico, Brasília viveu um dia de intensa agitação. Bolsonaro segue com suas pantomimas próprias de um gran circo para salvar a própria pele e reavivar sua agenda liberal de fachada, depois da convulsão que provocou ao determinar a troca o comando da Petrobras com o peso de seu coturno de estimação.

Em reprise ao dia anterior, atravessou a Praça dos Três Poderes, acompanhado de um punhado de ministros, para entregar o que seria o embrião de um projeto de privatização dos Correios, algo que mofa na mesa presidencial já algum tempo.

Na véspera, havia feito o mesmo cortejo para entregar o texto da Medida Provisória ao presidente da Câmara, igualmente um projeto tão maduro quanto um maracujá de gaveta. “Nossa agenda de privatização continua a todo vapor”, disse Jair na entrega. Normalmente o que justificam a edição de uma MP são sua relevância e sentido de urgência. Foi talvez pensando nisso é que alguém do staff presidencial estilhaçou uma porta de vidro na pressa de chegar ao gabinete de Arthur Lira.

A encenação parece não ter surtido efeito: as ações da Petrobrás voltaram a cair, mesmo depois de a empresa ter apresentado um lucro inesperado de 7 bi de reais. Parece que esse mercado irritadinho parece querer saber agora onde o capitão vai querer meter o dedo.

Paulo Guedes também compareceu, meio que na berlinda, depois que saiu da condição de todo-poderoso Posto Ipiranga para um escanteado posto de bandeira a meio pau. Ainda assim, aproveitando esse festival de propostas estúpidas que assolam o país, propôs ao Congresso a aprovação de um novo auxílio emergencial em troca da desobrigação de gastos mínimos com a saúde e educação, o que evidentemente a uma ampla revisão constitucional.

Esse delírio liberalóide é antigo sonho de consumo do incorrigível passadista Guedão. Mas como a chance de passar no Congresso tende a zero, esse autêntico posto de vilanias deve voltar ao seu lugar na vitrine onde foi colocado pelo capitão.

Para terminar o dia, Jair decidiu ainda promover uma barafunda negacionista com quatrocentos convidados (todos devidamente desmascarados) no Palácio do Planalto em cerimônia de posse de um autêntico representante do Centrão no Ministério da Cidadania e o deslocamento do indefectível Onix Lorenzoni para a secretaria geral da Presidência.

Ah sim!. Ainda teve tempo de esboçar intenção de veto ao projeto de lei que facilita a compra de vacinas como as da Pfizer (que já obteve o registro definitivo da Anvisa), dando respaldo ao governo de assumir responsabilidades em caso de imbróglio jurídico decorrente de eventuais efeitos adversos do tal imunizante.

O senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) fala em autossabotagem de Jair. Para entender o que vai na cabeça tosca de Jair, porém, talvez fosse o caso de considerar as fantasias persecutórias do capitão quanto ao próprio papel da Anvisa. Não haveria agentes comunistas infiltrados na agência a fim de derrubá-lo como no Petrobrás?

Já Arthur Lira, o eleito do capitão para presidir a Câmara, aproveitando a deixa do caso Daniel …(de quê, mesmo?), e o embalo da rede, prevê votar ainda nesta sexta (26), em regime de urgência urgentíssima uma outra PECzinha destinada a dar uma certa guarida aos parlamentares que por ventura possam ser mandados para o xilindró, como o cidadão citado que atualmente ocupa cadeira na Casa. Não por outra razão chamada mesmo internamente de PEC da impunidade.

O líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR), resumiu o espírito da coisa: “É uma reação à forma como o Supremo atuou na prisão…” (do tal deputado). “Então, agora, nós no Parlamento, vamos regulamentar de forma mais clara como isso deve acontecer se houver a necessidade”.

Hoje Brasília amanheceu com temperatura amena, máxima de 27°, parcialmente nublado e alguma possibilidade de chuvas ocasionais. Mas com certeza livre de qualquer tempestade prevista em qualquer canto do país.

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