Impedir Bolsonaro não é mais questão de se, mas quando

São Paulo entra neste sábado (6) na fase vermelha do combate à pandemia. Junto a ele outros estados e municípios país afora adotam medidas mais restritivas de isolamento numa tentativa desesperada de evitar o colapso do sistemas público e privado de saúde e conter o avanço da mortandade.

Jair Bolsonaro por sua vez segue impávido e colosso com sua balada fúnebre. Nesta quinta (4), em São Simão de Goiás, para a inauguração de trecho da ferrovia Norte-Sul, o capitão pra variar despejou mais um container de atrocidades verbais.

No momento apoteótico de sua fala voltou a atacar o fechamento de atividades não essenciais, a única alternativa que resta, já que não há vacina para cobrir nem a fase 1 do plano de imunização. “Chega de frescura, de mimimi, vamos ficar chorando até quando?

Ontem disse que se o deixassem (o STF), teria um plano contra a Covid, o que levou um juiz do Supremo a reagir, em resposta a Josias de Souza, do Uol: “Os brasileiros são seres azarados. Morrem sem saber que o presidente do Brasil é um gênio.”

Antes, pela manhã, na mineira Uberlândia, vociferou para uma fatia presente de sua claque habitual: “Tem idiota que a gente vê nas redes sociais, na imprensa, [mandando] ‘vai comprar vacina’. Só se for na casa da tua mãe. Não tem para vender no mundo”.

Descartado o caráter patológico e o acinte provocado por quem sempre negou e combateu a vacina, já não há mais por que considerar cada fala ultrajante desse cidadão, que faz de sua ignorância e incompetência base para um embate ideológico — nessa altura, uma saída mais do que conveniente diante do descalabro que se formou à sua volta.

O próprio mercado, ao que parece, demorou mas fez cair a ficha e já embutiu na conta o custo Bolsonaro. Percebeu o engodo, e talvez já não se importe em por sua cabeça a prêmio. De resto, o mundo o reconhece como potencial ameaça planetária.

Logo, quando muito caberia uma pergunta, já que não se pode esperar do indivíduo nenhum traço de humanidade diante da tragédia : o que faz alguém sabotar a única alternativa viável pra segurar a economia (coisa que até as emas do Alvorada e o bisonho Paulo Guedes sabem) que ele diz defender? Melhor deixar pra lá e partir para a prática.

O neurocientista Miguel Nicolelis, por exemplo, faz uma previsão profundamente sombria (“Podemos ter a maior catástrofe humanitária do século 21 em nossas mãos”) e uma proposta tão controversa quanto emergencialmente necessária ao El País: isolar o Ministério da Saúde por tutela judicial e criar uma Comissão Nacional composta por especialistas, membros da sociedade civil, governadores e STF, capaz de tomar decisões e supervisionar toda a logística.

“É preciso bancar uma decisão”, diz Nicolelis, pra quem falta ao país decisão política e visão estratégica. Pra dizer o mínimo.

Quanto ao indivíduo que habita o Palácio do Planalto, como gosta de argumentar o clã do capitão, impedi-lo já não é mais questão de se, mas quando.

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