Bolsonaro 2, a nova variante

A semana se encerra com o país envolto em um clima aterrador. A média móvel de mortos pela Covid bate novo recorde, superando a marca de 2 mil óbitos. O número de infectados cresce em espiral vertiginosa dia após dia. As redes hospitalares estão em colapso e não é de hoje. Já não há vagas nas UTIs.

Faltam leitos, falta oxigênio, falta equipe médica que eventualmente possa fazer frente ao crescente número de internações mesmo com a abertura de novos leitos. Falta vacina. E falta porque o governo se negou a providenciar. E então ficamos sabendo que os estoques de anestésicos e drogas utilizadas no processo de intubação.

A pandemia está fora de controle no Brasil. E essa é uma percepção de quase 80% dos brasileiros, conforme registro do Datafolha. Vivemos um clima de salve-se quem puder.

E o que faz Jair Bolsonaro? Entra com uma ação direta de inconstitucionalidade junto ao STF contra decretos de três governadores Bahia, Rio Grade do Sul e DF) que decretaram uma série de medidas restritivas, que é a saída que resta no combate à doença diante de um cenário dantesco. Para Bolsonaro, porém, são “projetos de ditadores”. “No decreto, disse ele, “inclusive o cara bota toque de recolher. Isso é estado de defesa, estado de sítio, que só uma pessoa pode decretar: eu”, justificou na véspera, em sua live semanal.

A primeira pergunta é (ou era): o que veio à cabeça desgovernada do capitão pra fustigar o STF, uma vez que a Corte já determinou que União, governos estaduais e prefeituras são corresponsáveis pela gestão da pandemia. E, assim como ele, as emas que coabitam a residência oficial sabem que a chance de sua ação prosperar é zero — o próprio advogado-geral da União, José Levi, parece ter procurado se esquivar da roubada, ao não assinar o pedido.

Bingo! A simples menção A pista já foi dada quando fez o anúncio de que entraria Adin pela live veio, como de costume, junto a incitação a sua turba negacionista e novas ameaças: “O pessoal fala muito em democracia e ditadura.” “…Temos que, cada um, reconhecer a sua importância e também os seus limites, senão o caldo pode entornar, ter uma briga em casa, ter tensões entre os Poderes, e ninguém quer isso aí.

O movimento do capitão veio sublinhado pela advertência de que “o caos vem aí”, o que poderá acarretar medidas duras”. Foi o suficiente pra promover um corre-corre em Brasília. Luiz Fux, chegou a ligar para o capitão para se certificar de que Bolsonaro não estava planejando decretar nenhum estado de defesa. Não, não estava, à exceção da sua claro.

Jair costura a narrativa de sua autodefesa diante do caos instaurado, com todos os ingredientes de sua retórica criminosa. O que temos agora em curso é uma versão repaginada de sua necropolítica. Ou, para traçar um paralelo com o momento atual, estamos diante de uma nova variante do mal, com o mesmo grau de disseminação e potencialmente mais letal diante do agravamento da situação.

A gênese da nova cepa é o corte da cabeça do servo general Pazuello na Saúde para a entrada do cardiologista Marcelo Queiroga, bolsonarista íntimo da casa presidencial, por pressão de sua própria base no Congresso. Uma troca da farda pelo jaleco, noves fora, nicas. Isso com direito a preâmbulo ilusionista, que foi a sabatina pró-forma da cardiologista Ludhmila Hajjar, e síntese de seu plano de ação. “Você não vai fazer lockdown no Nordeste para me foder e eu depois perder a eleição, né?

O jogo de cena travestido prossegue com o aval de sua base.

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