Um pacto pra salvar a pele do capitão

Na terra do faz de conta, a República de Jair Bolsonaro insere-se entre as grandes democracias ocidentais. E não fosse pelo momento dramático, o episódio desta quarta (24) poderia se notabilizar como a grande marca bufa de sua passagem pelo Planalto. Ladeado pelos presidentes da Câmara, Senado e STF, ministros (os dois da Saúde, um que entra e o outro que sai), procurador-geral da República, governadores alinhados de primeira e última hora, o líder máximo da nação anunciou a criação de um comitê de combate a Covid-19 depois de reunião fechada no Alvorada.

Do encontro ficamos sabendo que foi estabelecido um pacto nacional, sob a égide da “união e harmonia dos Poderes“, segundo o senso comum entre os presentes. “Porque essa é a expressão pura daquilo que a sociedade brasileira espera dos homens públicos”, justificou Rodrigo Pacheco. Arthur Lira lembrou que é preciso “despolitizar a pandemia, desarmar os espíritos”. E que a partir desta “reunião ficou claro um binômio: exemplo e esperança”, destacou Luiz Fux. Isso porque todos têm um objetivo comum: “salvar vidas”, sintetizou Ronaldo Caiado.

O episódio acontece no dia em que há o registro de 300 mil mortos no Brasil pela Covid. Mas as falas protocolares que caberiam em um cerimonial de introdução a um Comitê de Salvação Nacional, não escondem sua intenção. A encenação foi produzida a fim de salvar a pele do capitão e os interesses dos que estão ali para sustentá-lo. Na divisão de tarefas esboçado o capitão saiu com menos divisas do que entrou e com a recomendação de manter-se em seu quadradinho.

A tradução do que o distinto público viu pela TV pela manhã veio no fim da tarde com a manifestação do presidente da Câmara, Arthur Lira: “Eu estou apertando hoje um sinal amarelo para quem quiser enxergar. Não vamos continuar aqui votando e seguindo um protocolo legislativo, com o compromisso de não errar com o país, se, fora daqui, erros primários, erros desnecessários, erros inúteis, erros que não são muito menores do que os acertos cometidos, continuarem a ser praticados.”

O preâmbulo desta ficção foi apresentado ainda na terça, em pronunciamento em cadeia nacional, depois de Jair dar posse a toque de caixa a Queiroga, depois de requentá-la por mais de uma semana. Nele, um Bolsonaro automatizado contradiz o plano por ele idealizado meticulosamente para converter o país no epicentro mundial da pandemia. “Estamos fazendo e vamos fazer de 2021 o ano da vacinação dos brasileiros. Somos incansáveis na luta contra o coronavírus. Ao final do ano, teremos alcançado mais de 500 milhões de doses para vacinar toda a população.

O personagem travestido agora se move assombrado em três frentes: o derretimento de sua avaliação frente a pandemia, o ressurgimento de Lula e a multiplicação de sinais crescentes emitidos pelo mercado — o que fez o Centrão acelerar o passo na tentativa de adestramento do capitão. O último deles veio na forma de carta aberta, a Carta dos Economistas), subscrita por pesos-pesados do setor financeiro, agentes e analistas, em que finalmente o andar de cima resolveu reagir.

A Carta, além de um guia prático com o bê-á-bá para a para a gestão racional da pandemia, traz algumas análises, entre elas, o seguinte dado: a sabotagem das medidas sanitárias e o atraso na vacinação levarão a uma perda de 2% do PIB (algo como 130 bilhões de reais), isso na hipótese de uma recuperação em dois trimestres. Para quem não se importa com o empilhamento insano de cadáveres diários, talvez seja esse o estímulo pavloviano que faltava no experimento com Jair.

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