As chagas abertas à sombra da Covid

A tragédia que se abate sobre o país não está circunscrita à pandemia e seus desdobramentos funestos. A destruição se espraia e norte a sul ceifando o que encontra pelo caminho. E isso vale não só para o que é matéria orgânica como o substrato do que se entende por um estado de monocrático de direito e princípios civilizatórios. A destruição é a marca da política posta em prática por Bolsonaro e as instâncias que lhe dão sustentação. Um legado que tenderá a perdurar no tempo e espaço ainda que se consiga tirar esse cidadão da cadeira presidencial.

À sombra do terror vivido por brasileiros com o recrudescimento contínuo da doença, multiplicam-se as chagas pela via da ilegalidade e ante a negligência deliberada do aparato oficial. A Amazônia como como sempre é um dos principais alvos da ganância e da barbárie. Nessa semana passamos a ter uma ideia um pouco mais precisa do impacto que o impacto que mineração ilegal traz para a região.

Um estudo divulgado pelo Instituto Igarapé indica a existência de nada menos que 321 pontos de extração de ouro com o comprometimento direto sobre a floresta, as populações indígenas, nascentes e rios de nove estados que compõem a bacia amazônica. Em linha direta, o garimpo ilegal alimenta o desmatamento. De acordo com o Deter (Sistema de Detecção do Desmatamento em Tempo Real) isso representou, no período de três anos, que vai até meados de 2020, um salto de 4% a 23%. Trocando em miúdos: a devastação ambiental em áreas indígenas mais que dobrou (107%), entre 2018-2019, como consequência da mineração.

A corrida pelo ouro atual tem a ver com dois fatores: elevação vertiginosa no mercado internacional, nas últimas duas décadas, e a retórica bolsonarista combinada com o desmanche dos mecanismos de fiscalização e controle. O rendimento estimado dessa indústria espúria possa alcançar 28 bilhões de dólares.

Do horror à desfaçatez

Diante da escassez de vacinas no mercado internacional, e do consequente processo paralisante de vacinação interno, o Congresso aprovou projeto facultando a compra de vacinas pela iniciativa privada. Segundo a regra aprovada, caberá ao SUS igual percentual na base da doação o que for utilizado pelas empresas em seus funcionários. Acredite quem quiser.

O primeiro enrosco é: onde conseguir as vacinas e de quem. Caso haja facilidade na aquisição, teremos um capítulo inédito sobre os bastidores do comércio vacinal. Caso contrário, devemos concluir que o fura-fila da vacinação ganhou respaldo institucional. E que o tal Comitê Nacional para Enfrentamento da Covid, sob os auspícios de Bolsonaro, nada mais do que um tour de force pra livrar a sua própria cara.

O desarranjo veio com a decisão do ministro Luís Roberto Barroso de mandar o Senador instalar CPI para apurar responsabilidade do governo federal na condução da pandemia, acatando pedido de liminar da minoria. O capitão estrebuchou e reagiu fazendo que melhor sabe fazer: atiçou sua horda raivosa, ao atacar Barroso e pedir o impeachment de Alexandre de Moraes, a quem tem na alça de mira desde o inquérito das fake news contra seu séquito de bárbaros.

O senador Carlos Viana (PSD- MG), vice-líder do que convencionalmente se chama de governo, pescou a senha e tratou de colher assinaturas para o impeachment do próprio Barroso. Já o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, diz que não só acata a ordem de Barroso, que ainda deverá ir a plenário do STF, como “não vai mover 1 mm para travar a CPI”, depois de dizer que uma ação dessa no momento é um ponto fora da curva.

A curva de contágio e dos que sucumbem à doença não para de subir. E a onda que vem por aí agora pode engolfar quem estiver na cauda do capitão. Pacheco e o Centrão sabem disso

Deixe uma resposta