Previsão é de tempo quente, capitão

A dois dias da abertura da Cúpula do Clima, a Comissão Arns encaminha carta aberta aos líderes mundiais e organizadores do evento, alertando sobre desastrosa política ambiental do governo Bolsonaro. É uma forma encontrada pelos grupos em defesa dos direitos humanos, ambientalistas e líderes indígenas para confrontar posições que o capitão deve apresentar ao mundo sobre eventuais ações fantasiosas de seu governo.

O documento é assinado pelo presidente da Comissão, José Carlos Dias, e cita “a distância entre o que as autoridades brasileiras divulgam hoje e a realidade do país com o aumento do desmatamento da Amazônia, os riscos para os povos indígenas, os efeitos da mineração em áreas de proteção ambiental, entre outros problemas.”

De acordo com o documento, “o Brasil pode e deve assumir compromissos claros,
firmes e fortes no espírito do Acordo de Paris. Pode se comprometer com Contribuições Nacionalmente Determinadas mais ambiciosas e à altura das necessidades presentes”,
assumindo protagonismo das questões ambientais na agenda mundial”.

Relembra ainda que os avanços conquistados na área ambiental, desde 1988 — com iniciativas de redução do desmatamento conjugadas à legislação que estabeleceu a proteção de certas áreas da floresta e o reconhecimento do direito originário dos povos indígenas — estão sendo paulatinamente “revertidos” pelo governo Bolsonaro, com “palavras e atos”, que só servem de “estímulo à devastação”.

“No plano da retórica, em mais de uma ocasião, ele e alguns de seus ministros colocaram em dúvida a realidade da mudança climática, ameaçaram com a retirada do país do Acordo de Paris, questionaram as evidências científicas, demonizaram ambientalistas e ativistas de direitos humanos, desdenharam das tradições culturais dos povos indígenas falando em “integrá-los à civilização” e confraternizaram publicamente com praticantes de diferentes ilícitos.

Ao finalizar, a Comissão lembra que ao cobrar dos representantes do país nesta conferência compromissos claros, prazos definidos, metas precisas e métricas para aferir resultados, os participantes desta reunião ajudarão os brasileiros que querem a floresta de pé, os povos indígenas protegidos, as populações amazônicas assistidas e
um mundo mais sustentável”.

Outras iniciativas de alerta contra a política negacionista de Bolsonaro foram encaminhadas, nesta semana às lideranças mundiais que devem participar da Cúpula. Uma delas, produzida por representantes da área artística e cultural do Brasil e Exterior, pedem que o presidente americano Joe Biden recuse qualquer acordo na área ambiental com o mandatário brasileiro.

“Unimo-nos a uma coalizão crescente ao fazer um apelo ao seu governo para rejeitar qualquer acordo com o Brasil até o desmatamento ser reduzido, os direitos humanos serem respeitados e uma participação significativa da sociedade civil ser alcançada”, registra a carta, que pede para que os governantes privilegiem administrações regionais, líderes indígenas e representantes da sociedade civil no encaminhamento de acordos e financiamentos.

Subscrevem o documento os compositores Caetano Veloso e Gilberto Gil, o cineasta Fernando Mirelles, e atores como Sonia Braga, Joaquin Phoenix, Mark Ruffalo, Jane Fonda, Sigourney Weaver e Wagner Moura.

A proposta foi reafirmada em outra reunião virtual ente embaixadores da União Europeia e Estados Unidos e os senadores Randolphe Rodrigues (Rede-AP) e Jaques Wagner (PT-BA) e Alessandro Molon (PSB-RJ), além de representantes de ONGs e sociedade civil. A solicitação é de que eventuais recursos estejam condicionadas a metas claras e sua aplicação esteja subordinada ao acompanhamento de organizações não-governamentais — tudo com que Bolsonaro sempre sonhou.

Toda essa movimentação em torno da reunião convocada por Biden surge em momento que o pais registra novos recordes de desmatamento na Amazônia. Levantamento feito pelo Instituto Amazon aponta que a floresta teve a maior taxa de devastação em uma década para o mês de março. A Amazônia perdeu 810 quilômetros quadrados no último mês, um aumento de 216% em relação ao mesmo mês do ano passado.

Certamente o capitão terá uma pauta extensa para justificar durante a Cúpula. Previsão é de tempo quente pra ele.

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