A CPI e a insanidade

No primeiro dia de tomada de depoimentos da CPI da Covid, o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta falou por quase sete horas e meia. A rigor, não disse nada que não fosse do conhecimento público ou tivesse sido documentado pela imprensa e que por si só não fosse passível de condenação. Ainda assim, sua fala tem potencial de implodir o governo ao expor peças de bastidor do governo e a cruzada pro-disseminação do vírus empreendida pelo capitão.

Apenas duas já passagens são determinantes para que se forme um juízo ou eventualmente se possa imputar a responsabilidade pela pela tragédia por que passa a sociedade brasileira. A primeira é a confirmação de uma espécie de conselho paralelo que ditava as ações de gestão da pandemia, capitaneada por gente leiga e inabilitada, como seus filhos, contrariando as orientações de sua pasta — incluída aí a marginalização de representantes do governo chinês, com quem administração paulista negociava a compra de vacinas.

A segunda é a revelação de um certo documento, em forma de decreto, de origem e autoria desconhecidas, com normatização para mudança de bula da cloroquina, o ingrediente top do viria a ser o coquetel de tratamento precoce da covid 19. Assim, mesmo, colocado sorrateiramente à mesa para o devido encaminhamento.

Identificar o processo que levou à adoção e a tentativa de massificação da cloroquina como panaceia contra a Covid é a chave até agora para desenvolvimento domina os trabalhos da CPI. Porque é por trás dela que se sustenta a política desumana e insana pela busca da imunidade coletiva. O Brasil nas mãos de Bolsonaro é um dos pouquíssimos países, senão o único, a incorrer e prosseguir com essa estratégia homicida.

Já a tropa de choque governista faz o que dela se espera. Na estreia teve atuação destacadamente bisonha. Encarregada de fustigar Mandetta a fim de explorar eventuais e contradições seus integrantes liam as perguntas de papéis cuja autoria dispensavam o conhecimento prévio do timbre de autenticação para que se certificasse sua origem. Em uma delas, apresentada pelo o senador Ciro Nogueira, Mandetta logo apontou a fonte, ao comentar que o ministro das Comunicações Fabio Faria havia lhe encaminhado questão por engano na véspera.

Mas a máxima do dia foi protagonizada pelo general Eduardo Pazuello, que deveria ser o depoente do dia seguinte. Deveria, mas alegou ter tido contato, justamente na véspera, com dois coronéis que haviam contraído Covid19. Em razão disso encaminhou documento ao Comando do Exército, Força na qual ocupa cargo de secretário-geral, em que comunica que resguardaria quarentena, deixando como opção prestar depoimento por via remota.

Além da suposta infecção dos dois graduados, pode-se imaginar que o processo de media training pelo qual Pazuello tem passado nos últimos dias fez água, dada a tragédia que conseguiu construir à sua volta com grau elevado de incompetência e subserviência. Como a manobra não colou, a presidência convocou a majestática presença do roliço general para o dia 19.

Militares da ativa ouvidos pelo colunista Carla Araújo do Uol classificaram a atitude de Pazuello, como se diz na caserna, de ação retardadora. Há outras de mesmo sentido: bater em retirada, escafeder-se, tirar o seu da reta — certamente seguindo orientação de seu chefe, diante do desastre iminente. Retardadora será a agonia do general.

Se já não fosse o baque da estreia, Nelson Teich nesta quarta (5), acabou de escancarar o processo ao afirmar que saiu diante da pressão pela “ampliação de uso da cloroquina. Nas cordas, o capitão reagiu atiçando suas milícias virtuais, com ameaças de decreto contra medidas de isolamento e novos ataques ao Supremo e à China, a quem acusa mais uma vez de produzir e se beneficiar economicamente do vírus.

Reavivar o que era um embate ideológico na conta da diplomacia tosca de Ernesto Araújo agora é uma questão de sobrevivência. Os chineses mais uma vez são o alvo preferencial, justamente e quem dependemos crucialmente para obtenção de vacinas. Insanidade pouca é bobagem. E isso é só o começo.

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