Madeeeiraa!

A manchete da última quarta (19) só reservava espaço para a estreia do general Pazuello como depoente na CPI da Covid. Mas então, logo cedo, o país foi surpreendido pela notícia de uma devassa da Polícia Federal nos domínios do sinistro Ricardo Salles, este cidadão que ocupa a pasta do Meio Ambiente. Foram 35 mandados de busca e apreensão cumpridos em São Paulo, Pará e DF, em endereços particulares de Salles e da órbita do MMA.

A investida da PF visa apurar suspeitas de uma série de crimes: advocacia administrativa, corrupção, prevaricação e contrabando de madeira ilegal, envolvendo madeireiros em conluio com agentes públicos. A ação foi determinada pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF, que autorizou ainda a quebra dos sigilos bancários e fiscal de Salles.

A quebra, conforme Moraes apontou em sua decisão, foi embasada em relatório do Coaf, que registra “movimentação extremamente atípica envolvendo o escritório” do qual Sua Excelência é sócio, com 50% de participação. O registro é de 14 milhões de reais, movimentados em um período de pouco mais de 8 anos e que se estende até junho do ano passado. De quebra Moraes determinou ainda o afastamento de de Eduardo Bim, da presidência do Ibama, e de outros nove agentes públicos.

Os dois episódios ainda terão seus desdobramentos conforme avançam as investigações. Mas já dá pra cravar que a associação de ambos formam uma espécie de imagem-síntese do que é a gestão disso que se classifica de governo Bolsonaro, marcada pela a incompetência, o atraso, o negacionismo, a farsa, o desprezo pelas instituições e o descaso pela vida eos valores civilizatórios.

Batizada de Akuanduba, em homenagem à divindade dos índios Araras, que habitam o estado do Pará, a operação teve origem em uma apreensão por autoridades dos Estados Unidos de uma carga de madeira exportada para lá por duas empresas brasileiras . Para resolver a pendenga entidades de classe do setor acionaram integrantes da cúpula do Ibama, que se prontificou a emitir documentos para liberação da carga. Não colou.

As autoridades americanas farejaram mutreta na operação e denunciaram a manobra à Justiça brasileira. Foram cinco meses de investigações até até a sentença de Moraes “O que se viu na prática foi a elaboração de um parecer por servidores de confiança [de Salles], em total descompasso com a legalidade”, conforme sentenciou o ministro do STF.

Quem se lembra dos termos utilizados na reunião palaciana do ano passado, com os quais Salles formatou a fórmula para o desmonte rápido da legislação ambiental, e a repassou para os ministros das demais pastas como exemplo, com certeza vai associar o lance da época ao episódio atual. É parecer e caneta, parece e caneta, porque sem parecer, é cana”, ensinou o sinistro Salles, que acabou fisgado pelo próprio parecer.

O xeque contra Salles e a estrutura por ele montada no MMA bate na porta do Planalto e derruba a retórica falaciosa de Jair de que em seu governo não há corrupção. Já não se trata mais de cartada de embate ideológico. Agora o papo é de sujeira da grossa, incluída aí suspeita de contrabando de madeira extraída criminosamente da Amazônia.

E a história surge dias depois da queda de braço com ex-superintendente da PF no Amazonas, Alexandre Saraiva, que apresentou notícia-crime ao STF, no último dia14 de abril, acusando-o de criar obstáculo para investigações contra crimes ambientais e defender interesses privados no exercício de função pública. É a primeira vez que um ministro do Meio Ambiente se diz contra ação destinada a proteger a floresta amazônica”, disse ele, afastado do cargo um dia depois da acusação. Dá pra deduzir que não em vão.

Salles é o último entre os principais negacionistas do governo Bolsonaro — Abraham Weintraub e Ernesto Araújo já rodaram, e o capitão dá sinais de que vai mantê-lo, apesar do alto custo que a manutenção de Salles no governo possa gerar — o Tratado de Livre Comércio entre UE e Mercosul está mais próximo de uma miragem.

Na CPI Pazuello, em dois dias, produziu uma ode ao delírio, empurrando Bolsonaro pra caçapa. E quem quiser apostar que vivemos o começo do fim do capitão tem boas chances de acertar.

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