Pazuello, Salles e a vanguarda da estupidez

A semana se encerra com um desfecho transgressor do caso Pazuello. Ao capitular às exigências de Bolsonaro, absolvendo o servo-general, ainda da ativa, por ter participado de ato político – o que é vedado pela Constituição e pelo código disciplinar militar – a bordo do trio elétrico de seu chefe, o comandante do Exército Paulo Sérgio provocou um racha entre fardados da ativa e da reserva das Três Forças.

Diz a nota emitida pelo Centro de Comunicação do Exército que seu comandante “analisou e acolheu os argumentos apresentados por escrito e sustentados oralmente pelo referido oficial-general” e concluiu que “não restou caracterizada a prática de transgressão disciplinar por parte do General Pazuello e, em consequência, arquivou-se o procedimento administrativo que havia sido instaurado.”

O comandante poderia ter apresentado qualquer outra justificativa. Esta fere a lógica e o bom senso e lança uma sombra sobre a conduta dos fardados diante da cooptação que o capitão possa exercer sobre suas fileiras em período eleitoral e os desdobramentos que possam surgir a partir daí. Um integrante da cúpula militar lembra do caso do argento que se sentiu liberado para participar de live do deputado Major Vitor Hugo. Com a sentença favorável a Pazuello, a insubordinação bateu às portas do quartel.

A absolvição do general-servo da República acontece uma semana depois de encontro entre Jair, o bárbaro, e o comandante do Exército no Amazonas e da promoção de Pazuello a assessor da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República — um prêmio para seu papel na CPI e do desastre que foi sua passagem negacionista pelo Ministério da Saúde.

Pazuello foi usado como bucha de canhão por seu chefe pra peitar a cúpula militar e conseguiu ganhar a parada. O cenário previsto é que avance para exigir compromisso para seus propósitos golpistas. A oposição seve se armar para o que vem por aí. O capitão acuado é capaz de qualquer coisa.

Salles no mata-burro

O sinistro Ricardo Salles, que ocupa a pasta do Meio Ambiente, disse à Procuradoria Geral da República que a reunião que fez com madeireiros, após a Operação Handroanthus, que resultou na maior apreensão de madeira ilegal na Amazônia da história. Em nota, a Casa Civil informa que cabia ao general Luiz Eduardo Ramos, quando era ministro da Secretaria de Governo, intermediar demandas externas e que recebeu pedido de parlamentares de Roraima para expor ao MMA questões pertinentes à pasta. Há uma boiada inteira de suspeitas.

Técnicos do Ibama informam a PF que nada menos que 3 mil cargas de madeira saíram do Pará para diversos países sem autorização, como os carregamentos apreendidos nos EUA, e que deram origem à Operação Akuanduba.

O sinistro Salles está no mata-burro, com uma bucha equivalente ao volume de toras apreendidas. Na última quarta-feira (2) a ministra Carmem Lucia do STF determinou abertura de inquérito, a pedido da própria PGR (se mexeu!) para investigá-lo na Handroanthus. A ministra pediu também que a PGR se manifeste quanto à participação do presidente do Ibama, Eduardo Bim.

Salles responde a notícia-crime, apresentada pelo delegado da PF Eduardo Saraiva, por dificultar fiscalização ambiental e defender interesses privados referentes à apreensão no Pará. Por conta da acusação, Saraiva, acabou exonerado do cargo de superintendente da PF no Amazonas, apesar da credibilidade que ostenta no combate ao desmatamento e extração de madeira ilegal.

Na Corte, Salles já enfrenta outro processo, nas mãos de Alexandre Moraes, cuja relatoria é contestada pelo vice-procurador, Humberto Jacques de Medeiros, que tem atuado para que os autos sejam repassados a Carmem Lucia. Sem chance. Nessa a investigação é por facilitação de contrabando de madeira.

Dessa vez não vai ser tão fácil como tem sido para o capitão livrar a cabeça de Salles da degola.

Sopro de luz

Na CPI da Covid, a participação da médica infectologista Luciana Araújo explica sua incompatibilidade com o governo de Jair e porque chegamos a tragédia que vivemos cotidianamente. Sua fala e suas propostas são calcadas em ciência, racionalidade e método. Tudo o que este governo não professa, seja por ideologia, oportunismo ou ignorância. E isso explica ter sua nomeação para o Ministério da Saúde vetada.

Apesar de alguns verem ingenuidade política em sua intenção de integrar um governo negacionista, sua presença em curtas seis horas e meia na CPI já serviu de contraponto. Foi o sopro de iluminismo frente à panaceia delirante incorporada pela médica Nise Yamaguchi na véspera.

É dela talvez a melhor análise da conduta do governo Bolsonaro frente à pandemia e suas teses charlatanistas. “Quando disse, há um ano atrás, que estávamos na vanguarda da estupidez mundial, eu, infelizmente, ainda mantenho isso em vários aspectos. Porque nós ainda estamos aqui discutindo uma coisa que não tem cabimento. Sobre a discussão do uso da cloroquina, especificamente: “É delirante, esdrúxula, anacrônica, contraproducente” e não merece atenção. É como se estivéssemos discutindo de que borda da terra plana vamos pular. Não tem lógica.”

Desprezar competências é própria da estupidez, da pequenez moral e ética e da vilania política. Por isso continuaremos sob a condução e jugo de Pazuellos e toda a mediocridade reinante a serviço de Jair Bolsonaro.

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