Armações ilimitadas no front bolsonarista

O coronel da reserva Marcelo Pimentel Jorge de Souza apresenta uma nova versão para o atual papel dos militares no governo Bolsonaro, suas relações com Planalto e o momento pelo qual passa o país depois do episódio Pazuello. A tese de que, na cadeira presidencial, o capitão seria tutelado pelos fardados e que, a partir de certo momento, a criatura ganhou vida própria e enquadrou seus criadores é uma falácia.

Mais: tudo está correndo como o planejado, desde que os militares decidiram voltar, e para que se perpetuem no poder como o apoio da população. “O Bolsonaro já foi importante como líder, ‘cavalo de troia’, diz ele, para permitir que os militares (aglutinados sob a sigla do Partido Militar), assumissem o poder. “Mas agora é importante que o presidente seja tratado como um “estorvo” para que a população clame por uma solução aos generais.”

As declarações de Souza foram dadas à coluna Entendendo Bolsonaro, da Uol, assinada por Raul Galhardi, a partir de artigo do coronel extraído do livro Os militares e a crise brasileira, organizado pela Universidade Federal de São Carlos, em São Paulo. “Interessa aos militares tratar Bolsonaro como um incendiário, porque assim a sociedade, irritada com ele, clamaria para que eles resolvam a situação, deixando-o inoperante até o final do mandato ou mesmo substituindo-o no caso de processo de impeachment”, explica o coronel, para quem essa seria a melhor saída para um lance na linha “homem ao mar”.

“Quando eu digo isso é porque eles facilitam a permanência do partido no poder, com ou sem Bolsonaro. Se a CPI acelerar a saída do presidente, facilitará porque o Mourão vai assumir e poderá concorrer à reeleição tranquilo pela chapa da situação.”

Crítico da politização das Forças Armadas, Souza diz que o Partido Militar opera para que se acredite que há conflito de interesses entre duas supostas alas: uma associada racionalidade e representada pelo verde-oliva. Outra representada pelo tal gabinete do ódio.

Segundo ele, a real é que não há risco de golpe militar algum porque eles já estão no poder. A intenção do Partido Militar seria fazer crer que há um conflito interno no governo entre duas “alas”, a “racional”, composta pelos militares, e uma “ideológica”, feita pelo chamado “gabinete do ódio” comandado pelos filhos do presidente. Para ele, não haveria risco algum de golpe por parte dos militares porque eles já estão no poder. “Os que sempre deram golpe no Brasil ou que participaram de rompimentos institucionais de natureza política já estão no poder”.

A origem desse PM, que arrasta não só fardados, mas também “outras lideranças civis e personalidades que aderem a ele e servem como chamarizes para que o partido ganhe eleições”, se deve a cinco pontos: A eleição de Dilma, em 2010, com um passado marcado pela luta armada contra o regime. Sua reeleição quatro anos depois. Seu sinal verde para a constituição da Comissão Nacional da Verdade, que enquadrou oficiais do Exército, responsabilizando-os pelos crimes contra os direitos humanos.

A missão de paz do Exército brasileiro no Haiti, onde por mais de uma década liderou a coalizão de forças internacionais, que lhe rendeu prestígios e gordos soldos. E por último, a utilização de fardados em operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), principalmente no Rio, conferindo-lhe a credibilidade de Força capaz de combater o crime organizado.

“É a militarização da sociedade, que começa na militarização da segurança pública”, diz ele. “Não é à toa que Bolsonaro tinha sua base eleitoral, como deputado, no Rio de Janeiro.”

Já o general reformado Paulo Chagas, que costuma desancar o capitão pelo Twitter – apesar de ter embarcado na canoa bolsonarista em 2018 e concorrido ao governo do DF pelo PRP – admite o racha das Forças, ao menos entre a turma da reserva. E a razão tem nome: Jair Messias Bolsonaro, a quem, ele diz, seus pares inativos cultivam uma “idolatria, cega e pouco inteligente.” “Jair Bolsonaro, a quem eles parecem idolatrar e que tratam como o ‘Salvador da Pátria’ (como se isso existisse), é a antítese do Soldado, “um homem uja cultura, militar e acadêmica, não ultrapassa o nível da sola dos seus sapatos”.

Já seu servo estrelado, o general de divisão, da ativa, Eduardo Pazuello, depois de ser absolvido pelo Exército no processo disciplinar por ter participado de ato político de seu chefe supremo, acabou agraciado também por sigilo imposto pela Força de cem anos sobre o caso – além do cargo assessor especial da Casa Civil da Presidência O episódio que já era carimbado pela capitulação, agora ganha aura de manobra secular.

Apesar de surpreendente e abrir um racha ente fardados, o expediente parece ser praxe no governo do capitão. Em janeiro último o próprio Planalto se encarregou de decretar sigilo de cem anos ao cartão de vacinação de Jair. Os dados dizem respeito à intimidade, à vida privada, à honra e à imagem do cidadão ocupante da cadeira.

Com a agitação provocada pelas armações e manobras ilimitadas a serviço do capitão, os fardados já começar a sentir o desgaste de sua imagem. Pesquisa da XP/Ipespe divulgadas nesta sexta (11), registra que o índice de confiança nas Forças Armadas despencou e 70%, no período pré-Bolsonaro, para 58%, tendência que se acentua alo longo do mandato.

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