Ameaça invisível no ar

Um estudo inédito, divulgado na semana passada, dá uma exata medida das ameaças – mais uma – que rondam a vida no planeta. Em pesquisa conduzida pelo Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da USP, foram encontrados vestígios de microplásticos em tecidos pulmonares de 13 corpos, detectados por meio de autópsia, numa amostragem que reuniu 20 cadáveres investigados em São Paulo.

O resultado surpreende não só pela alta proporção dos corpos afetados, mas também pela variedade do material particulado encontrado: nove ao todo, constituído de partículas, menores que 5,5 micras (um micron equivalente a 0,001 milímetro), e outras fibras, submilimetricamente pouco maiores.

Conduzido pelo doutor em ciências e engenheiro ambiental Luís Fernando Amato Lourenço, o estudo durou desde o período de coletas, em 2019, a 2020, quando foram procedidas as análises. Em maio último, ganhou o reconhecimento Journal of Hazardous Materials, fórum internacional dedicado à publicação de artigos na área de Ciência Ambiental, e deverá figurar na edição de agosto de sua publicação.

Há estudos anteriores que registram a presença de microplásticos no ar de Londres e Paris e registros de ingestão humana desse material. Mas a detecção dessas partículas nos pulmões e sua consequente medição e tipificação são inéditas e trazem uma nova dimensão ao problema. “Para chegar ao pulmão, a partícula tem de passar por uma série de barreiras físicas e também biológicas, porque o organismo tem mecanismos para se defender e expelir corpos estranhos”, explica Amato. “Coincidentemente, são os materiais mais usados em embalagens e produtos de uso único”.

A presença de fibras de outros materiais, segundo ele, aponta para a origem em tecidos sintéticos e carpetes. O pesquisador diz que foi surpresa verificar que os fragmentos atingiram várias partes dos pulmões. “Para chegar ao pulmão, a partícula tem de passar por uma série de barreiras físicas e também biológicas, porque o organismo tem mecanismos para se defender e expelir corpos estranhos. Mas vimos que elas chegam a regiões bem profundas. É assustador”.

Uma gama infindável de compostos macromoleculares foram identificados na pesquisa, todos emblemáticos da vida moderna por sua largo emprego e utilização. Estão ali o polipropileno, utilizados em copos plásticos, sempre presentes nas empresas que embalam o cafezinho, assim como em brinquedos e mobília, e o polietileno, usado na produção nas infames sacolas plásticas de supermercado e sacolas plásticas. “Coincidentemente, são os materiais mais usados em embalagens e produtos de uso único”, observa o pesquisador.

Um outro estudo, publicado no início do ano pela revista Environment International, trouxe à luz a detecção de microplásticos em placentas de quatro mulheres. Intitulado Plasticenta – Primeira Evidência de Microplásticos na Placenta Humana, o estudo foi realizado com base em dados coletados no Hospital San Giovani Calibita Fatebenefratelli, de Roma, em amostragem que envolveu seis gestantes, todas com parto normal.

Esse pacote tóxico achado nos tecidos autopsiados ainda estão associados a vestígios de degradação do meio ambiente, como observa a patologista Thaís Mauad, responsável pela supervisão da pesquisa. “Com a temperatura e demais injúrias ambientais, as substâncias vão sendo expostas a bactérias que vão se grudando a esse material e têm potencial tóxico maior ainda.” A próxima etapa da pesquisa é estudar o comportamento desse material particulado quando mantido em cultura e e decifrar potenciais riscos à saúde humana.

As marcas do dilúvio

De acordo com o Atlas do Plástico, produzido pela Fundação Heinrich Böll e lançado em novembro do ano passado), faz uma projeção do tamanho e velocidade da tragédia que nos espreita. Até 2025, o planeta poderá atingira a marca de 600 milhões de toneladas de plástico produzidas por ano.

Isso equivale a a um aumento de 50% do que é produzido atualmente. Há cinco anos eram 396 milhões de toneladas e em 1950, não passavam de 2 milhões de toneladas. A fabricação de plástico virgem no século 21 equivale ao volume produzido nos 50 anos anteriores. O que é reciclado beira 1/4 disso, se tanto.

A publicação destaca o fato de que esse lixo plástico contamina solos, praias, rios e oceanos, comprometendo toda a cadeia alimentar, que termina na mesa do consumidor, cujos sinais já podem ser detectados em pontos remotos do planeta. E faz uma projeção que deveria emitir um sinal e alerta aos líderes mundiais. Até 2050, a produção do plástico deverá consumir entre 10% e 13% do limite projetado das emissões de carbono para que o aquecimento global não ultrapasse a marca fatídica de 1,5 ° C, como preconiza o Acordo de Paris.

Até lá, segundo Organização das Nações Unidas (ONU), se nada for feito, em 2050 haverá um volume maior de plástico do que de peixes nos oceanos. São nada menos que 10 milhões de toneladas que escorrem para os oceanos anualmente.

O Brasil ocupa o 4º lugar na produção de lixo plástico no mundo, com 11,3 milhões de toneladas, abaixo dos Estados Unidos, China e Índia, e recicla míseros 1,28 % do total. Pesquisa da WWF (World Wildlife Fund), realizada entre 200 países do mundo, indica que o brasileiro que, em média, 1 quilo de plástico por semana – com toda desigualdade social que o país ostenta e de maneira crescente.

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