A barbárie e sua tradução

Chutzpah é um termo iidiche que, em tradução livre, quer dizer “extrema cara de pau”. Em sentido mais amplo, segundo o escritor Leo Rosten, o termo equivale a uma uma absoluta negação pessoal por atos cometidos, está associado à carência de traços humanos comuns, como empatia e arrependimento, e naturalmente implica algum grau de psicopatia. A descrição do perfil sugere a de algum personagem da nossa política?

Claro. O termo não só se ajusta à personalidade perturbada de Jair, o bárbaro, como estabelece uma relação com a comunidade judaica brasileira: ao mesmo tempo em que empunha a bandeira de Israel e declara seu amor ao país é por ela execrado. Diz Jair, a respeito das denúncias de falcatruas na aquisição de vacinas no Ministério da Saúde. “Não tenho como saber o que acontece nos ministérios.”

Esse é capitão, aquele que manda e o testa de ferro da vez obedece. O que a CPI da Covid expõe com as últimas denúncias uma absoluta excrecência por barganhar em cima da vida de brasileiros. Convém que este é um só um dos aspectos criminosos e prospera por seu potencial impacto popular. Mas há um arsenal de crimes já elencados e fartamente documentados na condução da pandemia pelo grupo que ocupa o Palácio do Planalto. E um lamaçal desse porte, que combina ideologia com corrupção, em que florescem mercadores das sombras, só poderia mesmo vingar em um governo como o de Bolsonaro. Um esquema de autofinanciamento em busca de sobrevida. Chutzpah!

Pressionada pela ministra Rosa Weber a tomar posição, a Procuradoria Geral da República pediu para investigar Bolsonaro na compra abortada da vacina indiana Covaxin. Mas seu titular, Augusto Aras, de saída não vê indício algum de que Jair tenha cometido algum crime, prevaricado ou se omitido.

Já o presidente da Câmara, Arthur Lira, saiu para ironizar a CPI e o processo de superimpeachment dela derivado. “Vou esperar a CPI [concluir o processo], está fazendo um belíssimo trabalho, bem imparcial.” Lira só não espera as pautas de interesse do governo nefasto de Jair. ao contrário, toca a toque de caixa. Está aí a mudança no Estatuto do Índio, que já passou na Comissão de Constituição e Justiça, e outras aberrações como inviabilizar a demarcação de suas terras, assim como a liberação do garimpo nessas áreas de proteção.

Lira diz que atende a interesses nacionais. Confunde interesses próprios e de seu grupo com os do próprio país. E propõe como modelo de desenvolvimento do país. Com isso arrasta o Congresso para o ralo bolsonarista e, como Aras, assume a co-autoria na barbárie. A questão é até quando co-autores assinarão a obra.

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