Imunizantes na republiqueta do capitão

A velocidade e o descaramento com que a escalada da rapinagem tomou de assalto o Ministério da Saúde, desde que foi liberada a corrida pela aquisição de vacinas, é algo que extrapola páginas de um almanaque de uma republiqueta bananeira.

Desvendada pela CPI da Covid a trama ganha novos relevos a cada dia, sedimentada por uma profusão de tipos que abarcam políticos governistas, fardados suspeitíssimos da PM, da três e aventureiros de toda espécie, de um lado e outro do balcão, operando na tunga do Estado.

Faltava a perna religiosa das hostes bolsonaristas para dar forma ao tripé de sustentação de sua gestão. Já não falta mais.

Há dias a Agência Pública trouxe mais um capítulo a esse circo do horror. Em março passado uma organização evangélica armou com o Ministério da Saúde um esquema de oferta de de vacinas a prefeituras e governos e governos estaduais pelo país. A oferta, embalada com a marca da empresa americana Daviti Medical Supply, a mesma envolvida em contratos superfaturados de venda da indiana Covaxin, foi encaminhada por meio de carta, a qual a Pública teve acesso com exclusividade, por meio de uma certa Secretaria Nacional de Assuntos Humanitários (Senah).

De acordo com o documento, o negócio englobava vacinas da AstraZeneca e da Johnson na base de 11 dólares a dose e com prazo de entrega de 25 dias. O valor é o triplo do imunizante oferecido pela AstraZeneca e quase o dobro do cobrado pelo indiano Instituto Serum, o maior complexo produtor de vacinas do mundo. Ao todo, 400 milhões de doses (mesmo número acertado na oferta da Covaxin) divididas em quatro remessas.

Presidida pelo reverendo Amilton de Paula, a Senah nasceu em 1999 como Secretaria Nacional de Assuntos Religiosos (Senar). Só em 2020 é que mudou a natureza de seus assuntos, depois de passar duas décadas enraizando-se por todo o pais. Em seu site oficial, anuncia que seu “DNA está na cultura pela paz mundial, na fomentação deapio ao meio ambiente, sempre buscando meios sustentáveis para o desenvolvimento da sociedade, harmonizando homem e meio ambiente”.

Certamente a investida no setor de vacinas deve ter sido uma janela oportuna que se abriu em seu leque de assuntos constantes de seu DNA. E, claro, com o auxílio de uma mão divina que o guiou ao interior do Ministério da Saúde, ainda na gestão do general Pazuello no início de março. Como postou em suas redes sociais na sequência, o reverendo de Paula anunciou que o motivo de sua reunião com o pessoal do MS destinava-se à articulação mundial em busca de vacinas”.

Presente à articulação estava o cabo da PM mineira Luiz Paulo Dominguetti, o mesmo que se apresenta como representante da Daviti e que denunciou o diretor do departamento de logística da pasta, Roberto Dias, de pedir propina na base de 1 dólar por dose para viabilizar o negócio, que por sua vez foi preso acusado de falso testemunho ao depor na CPI.

Ah sim, o reverendo de Paula é velho conhecido do clã Bolsonaro. Falta mais alguém?

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