As ameaças sobre o Pantanal

Em plena época de estiagem no Centro-Oeste os olhos se voltam para o Pantanal. Isso porque no ano passado a seca que se abateu sobre o bioma foi a mais severa em meio século. Somem-se a isso o desmatamento desenfreado e as queimadas criminosas, turbinados pelo discurso oficial. E temos aí o quadro devastador que acompanhamos alastrar-se cotidianamente no ano passado.

Nessa temporada as previsões não são diferentes. Os sinais no horizonte são de alerta, com projeções de um cenário de degradação de proporções semelhantes como há um ano. De acordo com o Serviço Geológico do Brasil, o rio Jauru registrou, no final de abril último, a cota de 1,79m, no ponto onde em média costuma registrar 3,42m, ou seja, quase a metade.

Um dos principais afluentes do rio Paraguai, o Jauru integra o Arco das Nascentes do Pantanal, em Mato Grosso, estendendo-se em semicírculo em conjunto com as bacias hidrográficas do Tocantins-Araguaia e Amazônica nos limites da Baca do Alto Paraguai. Detalhe: o Arco das Nascentes, formado por outros cinco rios, é o responsável por 70% da água que escorre para o Pantanal.

O Pantanal, apesar de irrigado por esse vasto e rico manancial, não está ameaçado apenas pelo desmatamento e incêndios criminosos, que consumiram 1/3 de sua área na temporada passada. A expansão das fronteiras do agronegócio e o agrotóxico dele derivado e um complexo de centrais hidrelétricas perfilam entre os novos vilões, conforme extensa reportagem especial da Folha.

Durante oito dias no começo de março passado, os repórteres Lalo de Almeida e Fabio Maisonnave percorreram 1143 km da porção da Bacia do Alto Paraguai. E o relato que apresentam é um retrato acabado do modelo desenvolvimentista ali adotado e seus efeitos deletérios que por décadas vêm minando as condições de sustentabilidade de todo o ecossistema.

Navegando pelo rio Jauru, registraram seis hidrelétricas em um eixo distante 370 km de Cuiabá. E nenhum sinal de mata nativa. Só pasto. Pelo trajeto foram ainda foram detectados traços comuns em processos intervencionistas dessa magnitude: assoreamento e rios, erosão de encostas, destruição das matas ciliares, envenenamento das águas, muitas vezes de maneira deliberada, como meio de disputa pela terra e ataques às comunidades indígenas numa sucessão

O quadro já compromete a própria atividade do agronegócio. Mas o impacto maior se dá nas comunidades ribeirinhas que tem seu sustento ameaçado com o rareamento dos peixes. Para especialistas a saída para a preservação do Pantanal, essa majestosa planície inundável, é repensar a Bacia do Alto Paraguai, que se estende por 600 mil km2 e abarca três países. “A bacia tem de ser olhada como um todo”, diz Ibraim Fantin, pesquisador do Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). “Se a água que vem de cima não chegar ao Pantanal, o sistema será comprometido.”

Além disso, cessar toda e qualquer atividade ou processo que não esteja em conformidade com as boas práticas preservacionistas. O que significa dizer imprimir um alto grau de racionalidade à gestão de todo o ecossistema. Algo impensável na selvageria reinante no Planalto de hoje.

Deixe uma resposta