A corrupção e a reação populista

Em post em seu blog (Pandemia e endemia – A volta do tema da corrupção), na semana passada, o analista político e professor baiano Paulo Fabio Dantas Neto recoloca na mesa o tema da corrupção, a partir de artigo de seu colega das ciências políticas Marco Aurélio Nogueira, no Estadão, no qual ele analisa o lugar que a questão deveria assumir na agenda da oposição.

Basicamente Dantas concorda com as proposições gerais: 1) o tema da não pode ser ignorado, a despeito de outros mais cruciais. 2) requer melhor tratamento, numa agenda ampla, de maneira a “salvar a política, em vez de demonizá-la”. 3) sendo flanco vulnerável do governo Bolsonaro não deve ser dispensado como “arma política na luta contra o autocrata e sua antipolítica”

Dantas, porém, alerta para o processo pelo qual as coisas estão sendo conduzidas. Segundo ele, a partir do momento que a corrupção assume papel de destaque na agenda política, compreensível pelo compromisso e cumplicidade com o senso comum, e a oposição a encampa em busca de protagonismo, “contraria, ou mesmo revoga, cada uma das três proposições”. “Em vez de nexos, ele escreve, começa-se a ver na corrupção a causa dos outros problemas, inclusive da tragédia sanitária e social. Em vez de apontar caminhos que associem justiça e política, a demagogia que transborda, na CPI e fora dela, leva água ao moinho inclemente da antipolítica, que associa justiça e polícia. E pelo efeito combinado dessas duas atitudes (a simplificação e a demagogia) acaba comprometida a eficácia, como arma política, do combate à corrupção.

Por esse caminho resultado da equação é conhecido: “Instala-se uma guerra entre ratos pardos, como a que o dispositivo governista trava com os irmãos Miranda e vários outros ratos de navio, ora em busca de salvação do naufrágio. ”Com esse cenário traçado, Dantas pergunta se estamos indo a um bom lugar. E faz um convite à reflexão: “Denúncias de corrupção ajudam a derreter Bolsonaro, sim e devem ser processadas, sem dúvida. Mas onde e por quem? Por uma Curitiba às avessas no Senado? A que serve a mudança de objeto da CPI? O grande tema da saúde pública é apequenado pelo foco na corrupção.

Assim como o da saída econômica e o da proteção social tendem a ter o mesmo tratamento subordinado. ”O autor lembra que o papel secundário que o tema da corrupção assumiu nas últimas eleições municipais foi um diferencial positivo em relação às anteriores. E para que 2022 se dissocie da lógica de 2018 é preciso que o debate supere a tábula rasa. Mas “se a reação populista lograr colocar esse tema em destaque novamente”, adverte, “as chances de solução política vão para o espaço. Derrotar Bolsonaro por aí é reeditar a lenda de que todo político é ladrão. ”

O fato é que, “excluída a hipótese de golpe”, ele diz, o sistema sairá em busca de uma alternativa e nada impede que estabeleça um pacto com o centro socialdemocrata numa disputa com o PT de Lula. Evidentemente em um cenário em que Bolsonaro seja carta fora do baralho já no primeiro turno.

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