“Golpe? Comandante vai falar sozinho”

“Um golpe [de Estado] só pode ser dado se for ‘politicamente correto’. Se o camarada conseguir chegar na merda pelo lado limpo, aí teria algum perigo. Tu achas que é possível chegar na merda pelo lado limpo? Ninguém vai fazer uma bobagem dessas.”  A avaliação, em tom sarcástico, é do general da reserva Paulo Chagas, feita em entrevista a Vasconcelo Quadros, de A Pública.

Dos sinais emitidos ultimamente pela caserna, e a de fardados que passaram por ela, acerca dos delírios e ameaças golpistas de Bolsonaro, a de Chagas talvez seja o mais eloquente.

“Tem que olhar para o Exército e os generais do Alto Comando. Se o comandante [do Exército] tomar uma posição contrária ao Alto Comando, ele vai ficar sozinho, vai dar uma ordem que não será cumprida”, afiança Chagas, do alto de seus 38 anos de Exército, entre os 72 de vida.

Sua convicção apoia-se na interlocução que mantem frequentemente com os próprios graduados da farda. “Tenho conversado eventualmente com um ou outro do Alto Comando do Exército e dito que não devem se preocupar com essas coisas. Um deles me respondeu: ´General, o Exército não mudou. Isso aí é conversa de político. Não entra aqui’. Quem vai dar a definição do Exército é o Alto Comando, formado por 17 generais.

Sobre as recentes manifestações do ministro da Aeronáutica e do presidente do STM é taxativo: “Expressam a opinião pessoal deles, esticando a corda, dizendo que daqui a pouco “nós vamos ter que…” Nós quem?, pergunta.

Quantoaos recadinhos enviados pelo ministro da Defesa, Braga Neto, insinuando que poderá não haver eleições sem comprovante impresso, diz que prefere interpretar como uma “maneira infeliz” dele se expressar. “Seria muita burrice [caso de fato ele tenha ameaçado]e ele não serve para burro. ”

Devaneio

Paulo Chagas foi candidato a governador pelo Distrito Federal e serviu de palanque às pretensões de Jair em 2018. Deu meia volta volver a partir de uma singela constatação, feita ainda nos primeiros meses de mandato bolsonarista. “Fui mudando de opinião na medida em que o cara foi fazendo cagada. ”

A principal delas foi o tratamento dispensado por Jair, o bárbaro à pandemia desde o início de sua disseminação. “O Centro de Estudos Estratégicos do Exército coletou todas as informações que havia até aquele momento e apresentou uma proposta sobre como o Brasil deveria se comportar. Não foi feito nada porque o Bolsonaro optou por dizer que era uma gripezinha, que iam morrer duzentas pessoas. Só ele achava isso”, revela o general, que de lá para cá tem retratado em textos essa guinada e que agora pretende transformá-los em livro. O título? O Triste Fim de um Devaneio.

Chagas considera Bolsonaro um fraco, que só foi cair no colo do Centrão depois de tentar, “sem sucesso, obter um apoio mais decisivo das Forças Armadas”.

“Bolsonaro acreditou que tinha força para intimidar o Congresso”, mas acabou se dando conta que tinha deixado esqueletos no armário, como a rachadinha, e os problemas legais de Flávio Bolsonaro. ”

Daí, segundo ele, o capitão apelou seguindo a ordem natural das coisas, que ele dizia que ia reformar. “Agora o Bolsonaro está calmo porque se rendeu aos bandidos e todo mundo está comprado e pago”, diz.

“São os aproveitadores, oportunistas, abutres e que entraram num governo de direita para fazer negócios. Esse pessoal já esteve do outro lado. O cara vai pra um lado, vai pro outro, a troco de grana. ”

Diante de um cenário conturbado e Jair refém desse grupo que antes ele dizia abominar, Chagas o vê como alvo preferencial dos fardados. “Nós somos milicos e sabemos que quando for atacar, tem de ser rompendo o ponto fraco do inimigo. E o ponto fraco é Jair Messias Bolsonaro, seus filhos e os amigos dos filhos, que formaram aquele troço chamado gabinete do ódio. Se ele não muda, é ali que tem de bater. ”

Com um pé – ou dois – na política, Paulo Chagas mobiliza-se agora em torno de uma terceira via. E a aposta é na dobradinha (Sérgio) Moro/ (Hamilton) Mourão, o cunhado indesejado.

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