Os recifes e nós

No último fim de semana fomos surpreendidos por mais um desastre ambiental. Manchas de óleo e lixo de toda espécie, incluindo hospitalar, foram bater na costa do arquipélago de Fernando de Noronha. Foram atingidas ao menos quatro praias. Foi necessária a programação de um mutirão de limpeza conduzida por ICMBio, ONGs e voluntários.

Atol das Rocas/ Natalia Roos

Como os demais desastres do gênero pelo litoral do Nordeste e sudeste, desde o primeiro derramamento de petróleo cru em agosto de 2019, suas causas e origem são desconhecidas. E pela retrospectiva assim deverão permanecer, sem que os responsáveis possam responder pelos crimes.

Se na superfície a ordem é jogar o processo na gaveta, até que as marés consigam dissipar qualquer vestígio do dano produzido, sob ela o papo é outro. O cenário de destruição já ganha contornos de irreversibilidade.

Um estudo publicado nesta quarta (18) pela revista científica Ecosystems confirma o desastre à vista. Nada menos que metade de toda vida marinha de recifes tropicais do Atlântico Sul serão pulverizados até o final do século, caso o nível de emissão dos gases do efeito estufa se mantiver em níveis atuais.

O estudo foi conduzido por pesquisadores brasileiros das Universidades Federais do Rio Grande do Norte e do Espírito Santo e teve como campo de pesquisas o Atol das Rocas, primeira reserva biológica marinha brasileira, distante 150 quilômetros justamente do Arquipélago de Noronha. A justificativa para a escolha do Atol soa como uma ponta de ironia diante dos ataques a um ecossistema tão complexo e frágil.    

“Por ser uma área protegida, os recifes do Atol são um laboratório do que seria um ecossistema natural, com mínima interferência humana direta”, diz Guilherme Longo, um dos autores da pesquisa.

Baseado em modelos matemáticos sobre a cadeia alimentar dos recifes, o estudo utilizou-se dos cenários projetados pelo 5° Relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, produzido em 2013, e que versava sobre os impactos de uma elevação de1,5° C do aquecimento global acima dos níveis pré-industriais – o último acaba de ser divulgado.

Comparando a biomassa dos diversos seres subaquáticos analisados durante os sete anos de duração do estudo, os pesquisadores chegaram às seguintes conclusões, a partir de três cenários traçados. 1) os recifes perdem 1% de sua biomasssa em caso de baixas emissões – possibilidade já descartada pelo último relatório do IPCC. 2) perda considerável de 8% diante de emissões intermediárias. 3) projeção de uma perda de 44% de toda biomassa frente ao grau de emissões já verificadas atualmente – porcentagem com potencial de inviabilizar a existência dos recifes.

Transportadas para a vida cotidiana, as projeções dão uma ideia significativa sobre os possíveis desdobramentos com a aceleração do aquecimento global, principalmente pelos impactos sobre as cadeias produtiva e alimentar . E seja por vocação ou negacionismo, continuamos a investir no caos, devastando as florestas, despejando lixo nos mares, abusando do consumo de combustíveis fósseis e produzindo em uma escala muito superior à capacidade de regeneração do planeta.      

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