Mulheres empurradas para o abismo

Por Carol Pires

“Os terroristas não acreditam que as mulheres devam ser educadas, ou receber cuidados de saúde, ou deixar suas casas”, disse George W. Bush após a invasão americana derrubar o Talibã do poder no Afeganistão, em 2001. Nos 20 anos seguintes, as afegãs foram encorajadas a sonhar. Até que, outra vez, foram abandonadas à mercê de homens armados que as desprezam.

Shamsia Hassani, artista afegã

A volta do Talibã abriu uma crise humanitária complexa e especialmente cruel para mulheres, antes obrigadas pelo grupo fundamentalista a andar com o corpo todo coberto e acompanhadas por um homem, sob pena de espancamento. Nas últimas duas décadas, as afegãs percorreram um caminho árduo, mas ascendente. Em 2009, a aprovação de uma lei de enfrentamento à violência contra a mulher foi histórica —ainda que largamente ignorada. Hoje, elas são estudantes, motoristas, juízas, policiais, atletas olímpicas.

No ano passado, o Afeganistão já tinha mais mulheres no parlamento do que os Estados Unidos.
Essas afegãs, hoje, estão petrificadas. Muitas estão enterrando seus diplomas e tentando apagar os rastros de suas conquistas. Enquanto via suas amigas serem evacuadas da universidade pela polícia, uma estudante de 24 anos relatou no The Guardian que estudantes homens zombavam do seu desespero: “Vá e vista o seu chadari [burca]”; “São os seus últimos dias nas ruas”; “Vou me casar com quatro de vocês em um dia”.

O direito das mulheres foi conveniente para justificar a guerra, até que deixou de ser. Ano passado, questionado se assumiria a responsabilidade pela perda de direitos das afegãs, o presidente Joe Biden respondeu: “Responsabilidade zero”.

Distantes e impotentes, mulheres de todo o mundo sofremos pelas afegãs e sentimos a fragilidade das nossas conquistas por igualdade. Por isso nunca podemos aceitar um passo atrás sequer nos nossos direitos. Porque até ditos aliados podem não estender a mão para nos salvar do abismo.

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