Apagão: de volta para o passado

 

O Brasil vive a maior crise hídrica e energética em quase um século. A informação é do próprio Ministério das Minas e Energia. Levando-se em conta que esse é o marco zero do período analisado, a crise perpassa por toda a história do país. A seca atinge principalmente as regiões Sudeste e Centro-Oeste.

A previsão é de que as chuvas voltem a partir de outubro, mas deverão continuar esparsas e abaixo da média. Essa perspectiva, somado aos déficits anteriores e as baixas precipitações do último verão, tende a manter o cenário crítico, uma vez que essa combinação compromete o armazenamento dos reservatórios.

No momento vivemos uma espiral perversa: baixa na geração de energia, comprometimento da navegação para escoamento da produção agrícola e aumento da inflação, decorrente da elevação das contas de luz, água e de alimentos.

A estiagem mais dura nesse ano foi verificada em Minas Gerais, que concentra os principais reservatórios vitais para o abastecimento dessas duas regiões, além de Goiás e São Paulo, o volume de chuvas foi mínimo. E as nuvens no horizonte não apontam para mudança no quadro.

A sensação é que embarcamos de volta para o passado de apagões. Especialistas não descartam a possibilidade.  De qualquer forma, os riscos de uma estiagem prolongada não afetam apenas a produção energética. Há quem aponte mesmo a falta d´água para irrigação das lavouras.

Pouco mudou o fato de que o sistema energético ter passado por um processo de expansão, reduzindo a dependência das hidrelétricas – de 83% em 2001 para cerca de 62%.   

Mesmo crítica, a situação atual dos mananciais e reservatórios não causa nenhuma surpresa. A escassez de chuvas é observada desde 2014, a partir de quando os volumes raramente superaram a média histórica, deixando os reservatórios em níveis de alerta.

Hoje há uma conjunção de fatores que conspiram a favor do apagão. O ponto fora da curva é La Niña, evento provocado pelo esfriamento as águas do Oceano Pacífico em contraposição com as águas mais quentes do Atlântico Sul, e que “normalmente levam a secas no Sudeste brasileiro”, lembra Philip Martin Fernside, doutor pela Universidade de Michigan e pesquisador do Instituto

Mas a causa principal aponta para a devastação da Amazônia. “Isso porque o regime de chuvas da região Sudeste do país depende da evapotranspiração da floresta amazônica”, explica o professor Humberto Barbosa, da Universidade Federal de Alagoas e especialista em degradação ambiental, em entrevista ao UOL.

No relatório do IPCC de 2018, Barbosa advertia em um dos capítulos do documento que que o Sudeste brasileiro seria a região mais afetada pela destruição da floresta.

Reverter o processo nessa altura do campeonato, pelo no momento em que o comando do país está entregue a alguém que psicoticamente investe no caos e , não é nem um pouco factível.

Restam incertezas e a perspectiva do agravamento das condições climáticas. E como diz o próprio Barbosa, “a parte mais assustadora da mudança climática, não é o que sabemos, mas o que não sabemos”.

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