O desequilíbrio ambiental e o tiro no pé do agronegócio

Nos últimos 50 anos os desastres ambientais ao redor do planeta provocaram a morte de 2 milhões de pessoas e um prejuízo estratosférico de 3,6 trilhões de dólares. Os dados são parte de um estudo divulgado pela Organização Meteorologia Mundial nesta quarta (1º). Trata-se do maior levantamento já realizado sobre os efeitos das mudanças climáticas, que contrapõem cheias devastadoras a estiagens prolongadas e outros eventos extremos.

O dado que mais chama a atenção é a frequência desses desastres. No período entre os anos 70 e a última década o número de ocorrências dessa natureza aumentou cinco vezes. São cerca de 11 mil desastres ambientais registrados entre 1979 e 2019.

O furacão Katrina, o litoral sul dos Estados Unidos em agosto de 2005, com eventos de 280 km/h, ocupa o topo da lista. Seu rastro de destruição provocou prejuízos de 163 bilhões de dólares e 1800 mortes. Nada se comparados às 300 mil vidas ceifadas pela seca na Etiópia na década de 80.

O lado mais perverso da escalada dos eventos climáticos extremados é que os mais atingidos são sempre os países mais pobres. Entre os 2 milhões de mortes ocorridas em meio século, 91% delas foram registradas justamente nas regiões mais carentes. E ironicamente onde as emissões são largamente inferiores às das grandes economias.

Na América Latina no levantamento os dez maiores eventos climáticos foram responsáveis por 60% das mortes e prejuízos de cerca de 40 bilhões dólares. Nove entre dez desses desastres mais uma vez foram as enchentes.  

Nessa altura do campeonato está claro que o desequilíbrio ambiental tem desdobramentos em cadeia, menos para Bolsonaro e para setores atrasados do agronegócio, que veem na expansão das a fronteiras agrícolas – via a aberração do marco temporal – a possibilidade de alavancagem da produção. Ignoram que se trata de um tiro no pé.

Outro estudo, produzido por cientistas brasileiros, em parceria com a Universidade de Bonn, e publicado pela revista científica Nature, em maio passado, fazem uma projeção dos impactos que a alteração no regime de chuvas e a perda da biodiversidade provocadas pelo desmatamento representam para o agronegócio.

Em valores redondos: o agronegócio deverá amargar perdas de 1 bilhão de dólares, caso seja mantido grau atual de devastação da Amazônia. “É uma situação autodestrutiva”, comentou o engenheiro florestal e mestre em Meteorologia aplicada Argemiro Teixeira Leite Filho, coordenador do estudo.

Sabia bem o que disse o presidente da Associação Brasileira do Agronegócio, Marcello Britto, que “o agro não precisa invadir terra indígena para crescer”. Sim, e o seu fim não está numa eventual rejeição do marco temporal pelo STF, como tenta vender o capitão. O começo do fim está justamente na sua aprovação.

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