A água nossa de cada dia

A Mata Atlântica, um dos biomas mais ricos em biodiversidade, mantêm um quarto de sua cobertura vegetal. A perda nos últimos 35 anos foi mínima: menos de 1,5%, apesar do desmatamento acelerado registrado no final dos anos 80.

O levantamento, inédito, é do Mapbiomas, um projeto do Observatório do Clima e que abarca uma rede composta por ONGs, universidade e empresas de tecnologia. Para chegar a esse resultado ela se apoiou em um conjunto de imagens colhidas por satélite.

Qual o segredo para a preservação da floresta diante do de um cenário devastação? Acontece que nesse período foram derrubados 10 milhões de hectares de vegetação primária.  Com o replantio, porém, 90% dessas áreas passaram a ser constituídas de vegetação secundária. E aí, segundo especialistas, está uma compensação ilusória.

“A aparente estabilidade da cobertura florestal da Mata Atlântica é enganosa porque existe uma diferença de qualidade entre uma mata madura, rica em biodiversidade e com carbono estocado, de uma área em recuperação”, explica o coordenador técnico do MapBiomas, Marcos Rosa.

Fácil deduzir o impacto disso, agora que atravessamos nova crise hídrica, provavelmente pior que o apagão de 2001. Pelo menos o nível dos reservatórios do Sudeste e Centro já estão abaixo do registrado na época.

A Mata Atlântica é um sistema complexo, que depende de sua cobertura madura para sua funcionalidade plena. Nada menos que 70% dos brasileiros, ou seja, um universo de cerca de 150 milhões de pessoas, dependem da água proveniente de suas fontes para abastecimento e geração de energia.

A preocupação maior, apesar da recuperação de parte da mata, é com a recuperação das bacias hidrográficas, dos 17 estados que abrigam as porções remanescentes do bioma.  Isso porque o desmatamento dessas áreas afeta diretamente a produção de água.

Se houve regeneração da Mata Atlântica, o mesmo já não se pode dizer dos outros biomas que compõem o patrimônio natural brasileiro.

Há exatamente um ano, o IBGE divulgava estudo registrando a dimensão das perdas da vegetação nativa brasileira. Em apenas, 18 anos, no período que vai e 2000 a 2018, foram devastados 500 mil quilômetros de todos os biomas. A Amazônia, claro, aparecia como a campeã da devastação, com uma área perdida equivalente ao tamanho de seis estados do Rio de Janeiro. Causa principal do desmatamento: expansão das áreas e pastagem.

O levantamento foi feito antes dos incêndios que consumiram boa parte do Pantanal, bioma até então menos atingido pelo desmatamento. Mas o quadro já indicava redução no volume d´água, dado que o avanço das fronteiras agropecuárias já tinha impacto direto sobre as nascentes do Cerrado, situadas ao norte do Pantanal.

E com um agravante: os rios que correm para o Pantanal carregam quantidades maiores de agrotóxicos e sedimentos para o seu interior, reduzindo consequentemente o volume de água que o abastece.

O Brasil está secando e não é por acaso. Um projeto hídrico é mais do que urgente

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