A fome que a ficção de Bolsonaro esconde

Em setembro do ano passado, Bolsonaro subiu à tribuna da ONU para exaltar sua pátria amada como a que “desponta como o maior produtor mundial de alimentos”. Disse ele: “No Brasil, apesar da crise mundial, a produção rural não parou. O homem do campo trabalhou como nunca, produziu, como sempre, alimentos para mais de 1 bilhão de pessoas. O Brasil contribuiu para que o mundo continuasse alimentado”, afirmou o presidente. “Garantimos a segurança alimentar a um sexto da população mundial. ” 

De lá para cá o horror da fome só dá as caras na potência alimentar celebrada por esse cidadão que ocupa o Palácio do Planalto. Cenas chocantes de famintos disputando ossos em caçambas de restos de comida multiplicam-se pelas cidades.   

O descompasso entre a projeção do capitão e a realidade local não se resume só a rankings – o Brasil é o terceiro maior produtor de alimentos, atrás de China e Estados Unidos. O discurso falacioso atinge a alma da nação quando sua gente de becos, esquinas e favelas é excluída da fatia privilegiada da população mundial a quem é garantida a segurança alimentar made in Brazil.

De fato, a produção agropecuária brasileira cresce vertiginosamente na mesma proporção de famílias que não têm o que comer. Um raio x sobre essa dicotomia perversa está em Cadeia Alimentares, caderno especial da Folha, lançado no último sábado (22), que aborda os diversos processos de produção, distribuição e consumo de alimentos no país e seus reflexos na saúde, no meio ambiente e na economia.

Mapa da fome

Com base em dados do IBGE e da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional, o caderno traça um panorama da situação nas últimas duas décadas. Em 2004, a insegurança alimentar, em todos os graus até a fome, afligia 21,5% da população. Quase dez anos depois, esse patamar baixava para 8,4% para no ano passado, no auge da pandemia, voltar a atingir um percentual perverso 20,5% da sociedade, afetando principalmente as regiões Norte e Nordeste e a áreas rurais.

Trocando em miúdos, 116,8 milhões viviam em situação crítica de sobrevivência, em dezembro do ano passado, de acordo com o Inquérito Nacional sobre Segurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid 19. E 19,1 milhões, ou 9% da população, já ultrapassavam a fronteira da fome crônica.  

O capitão tem uma realidade renovada sob sua gestão a apresentar na reunião do G20 neste fim de semana, em Roma, além do país faz-de-conta que sua agenda obtusa e bandalha tenta vender.

Deixe uma resposta