A COP e suas pomadas e analgésicos

Saem de cena os mandachuvas da 26ª. COP, a Conferência das Partes do Clima, em Glasgow, e entra em campo a diplomacia. Depois de quatro dias, pouco se tem pra comemorar diante da expectativa gerada.

Biden, que teve seu megaprojeto de 3,5 bi de dólares para reforma da infraestrutura e combate às mudanças climáticas barradas por alguns senadores de seu próprio partido, aliou-se à UE e liderou movimento para aprovar acordo de redução das emissões do gás metano. Diferente do gás carbônico, o metano é mais nocivo, mas pode-se dissipar em duas décadas, enquanto o CO2 pode pairar na atmosfera por séculos.  

Ao lado de 20 outros países, os americanos anunciaram também, nesta quinta (4), o fim dos financiamentos públicos de projetos internacionais de combustíveis fósseis já a partir de 2022. Com isso 8 bilhões de dólares anuais devem ser dirigidos para energias limpas.

Mas enquanto signatários celebravam os acordos no palco da COP, manifestantes do lado de fora acusavam empresas de promoverem o greewashing (a maquiagem verde), ao venderem publicidade sustentável, quando financiam projetos movidos a combustível fóssil.

Seguindo essa trilha, o Brasil, já na condição de pária consumado, enquanto incentiva a devastação e o garimpo ilegal na Amazônia, vende agora a ideia de que o país é um paraíso preservacionista. O Brasil é uma potência verde. Temos a maior biodiversidade do planeta, a maior e mais rica cobertura florestal e uma das maiores áreas oceânicas. No combate à mudança do clima, sempre fomos parte da solução, não do problema.Vamos favorecer ações e projetos de conservação da floresta, o uso racional dos recursos naturais, redução de emissão de gases de efeito estufa e principalmente, geração de empregos verdes”, discursou o capitão como um Chico Mendes redivivo, em vídeo dirigido à Conferência.

Bolsonaro foi um capítulo à parte nesses dias iniciais da COP. Ausente de Glasgow, foi a Roma, onde havia a Reunião do G20. Escanteado nos salões oficiais e sem nada para tratar, cumpriu roteiro próprio de líder de sua estatura. Vagou pelas ruas da capital italiana em busca de simpatizantes, cometeu gafes em cascata, frequentou casa especializada em charcutaria para provar do bom salame, agrediu a imprensa e induziu sua segurança a abrir caminho entre jornalistas na base da porrada.

Em retribuição, no vilarejo seus antepassados, onde receberia o título cidadão honorário, foi saudado com esterco na porta da prefeitura local e cartazes de Fora Bolsonaro.

De prático, da parte da missão brasileira, fica ação dos governadores que se uniram em torno do Consórcio Brasil Verde, com o qual esperam qualificar-se para receber recursos internacionais destinados a Amazônia.

Mas o destaque para salvar a imagem da pátria brasileira foi a presença altiva de Txai Surui, filha do grande líder Almir do povo Surui da Amazônia, que discursou na abertura da COP. “Vamos continuar pensando que com pomadas e analgésicos os golpes de hoje se resolvem embora a gente saiba que a ferida de amanhã será maior e mais profunda”, perguntou ela.

O mundo espera que até o final da conferência não venham com mais band-aids.

Um comentário sobre “A COP e suas pomadas e analgésicos

Deixe uma resposta