O voluntarismo empresarial na COP e a real cena brasileira

Na omissão destrutiva de Bolsonaro na COP, a iniciativa privada se impõe, como fizeram antes o consórcio de governadores em busca de recursos para a Amazônia.

Um grupo de empresas de diversos setores lançaram na última terça (9) documento em que assumem compromisso com uma agenda ambiental mais ambiciosa, ancorada na tese original de limitar o aumento da temperatura média global em 1,5°C. Esse é o limite preconizado por cientistas para evitar o conhecido ponto de não-retorno, segundo o qual o planeta sofrer impactos climáticos devastadores.

Organizado pelo Instituto Ethos, o documento leva o nome de “Propostas e Recomendações Empresariais para a NDC Brasileira. NDC, na sigla em inglês, significa Contribuição Nacionalmente Determinada, e diz respeito a compromissos voluntários assumidos por cada país signatário do Acordo de Paris.

As tais propostas e recomendações foram presentadas no Painel “Elevando a Ambição Climática da NDC Brasileira e Caminhos para a Descarbonização”, e contam com apoio de uma série de empresas associadas, como Natura & CO, Aché, Servmar Serviço Técnico Ambientais LTDA, SPIC Brasil, e Synergia, Ambiensys Gestão Ambiental LTDA, Green4T, JLL, ICTS e outras.

Na carta o grupo signatário se compromete não só a medir e promover a redução das emissões dos gases do efeito estufa, apoiar a conservação dos biomas e o fortalecimento da economia de baixo carbono, como também pretende eliminar produtos oriundos do desmatamento e da exploração ilegal das redes de produção e comercialização e inserir na base de investimentos a precificação do carbono.

Se propõe ainda a investir em pesquisa e desenvolvimento para uso sustentável dos recursos naturais, fomentar a bioeconomia da floresta em pé e soluções baseadas na natureza, valorizando o conhecimento dos povos originários e tradicionais. E, além disso, incluir na estratégia de negócios a valorização dos direitos humanos em suas atividades e contribuir para eliminar o desmatamento ilegal das cadeias produtivas e, de quebra, reduzir o desmatamento legal.

Em síntese, um apanhado de ações civilizatórias e de salvaguarda de longo alcance, mas que trafega na contramão do que defendem as cabeças do Planalto.

Sambalelê

Da parte do governo federal, o mais do mesmo com toques pervertidos. Escalado para chefiar a delegação brasileira na Conferência, o intitulado ministro do Meio Ambiente, Joaquim Leite, foi protagonista de dois momentos que dão a dimensão do receituário ambiental bolsonarista.

Num primeiro, em pronunciamento gravado para a abertura da COP 26, Leite deitou o verbo preservacionista, “soluções inovadoras” e metas de redução de emissões, capazes de “posicionar o Brasil como país fundamental nessa nova agenda verde mundial”.

Já no segundo, em discurso oficial, da tribuna da COP, em Glasgow, declarou que “onde existe muita floresta também existe muita pobreza”.

A declaração de Leite sabe onde mira. A questão tem como origem interesses familiares, como revelou A Pública em reportagem da semana passada. Sua irmã advoga para os Leite em disputa de terras, em São Paulo, contra os indígenas guarani Mbya e Ñandeva. Fátima Leite também sócia da Glock, empresa austríaca que desde 2005 fornece armamento para o governo federal. Nos últimos 3 anos faturou 43 milhões de reais só com o governo federal.

Não há maquiagem verde que resista.

Fim da COP 26

Hoje termina a COP26, com o acordo sobre a eliminação gradual dos combustíveis fósseis entalado no acordo final, depois da pressão dos países produtores de gás e petróleo. Promessas, promessas, promessas.

Já do lado tupiniquim, novos dados do INPE, divulgados nesta sexta (12) dão a real da cena brasileira para coroar a participação brazuka na COP. A área de alertas detectada pelo Deter saltou para 877km², 5% a mais em relação ao ano passado. Mais um recorde na série histórica de cinco anos.

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