Fim da COP 26. O que esperar a partir daí?

A COP 26 acabou no fim de semana, deixando mais um rastro de incertezas pelo caminho. Não é só a falta de ambição como detectaram analistas do meio. Na real o que os mandachuvas do mundo fizeram foi submeter a conferência a um greenwashing, ou um banho verde na língua do Bananão.

Na base dos resultados pífios, imperam interesses corporativos e governamentais. Como observou o presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental, Carlos Bocuhy, em sua coluna d´O ECO: “É notório que Glasgow, o berço da revolução industrial, acabou por revelar ao mundo os vários conflitos de interesse que fortemente se instalaram no seio da humanidade — e que continuam a se ampliar, apesar dos aparentes e cosméticos esforços para a descarbonização do planeta. ”

Ou na tradução da ativista juvenil sueca Greta Thunberg: A COP26 acabou. Aqui vai uma palinha: blá-blá-blá. Mas o trabalho de verdade continua fora dos salões, e nós nunca vamos desistir”, mandou pela rede.

Depois de duas semanas de grandes plenárias, muito discurso, holofotes e noites mal dormidas, o que restou foram promessas e acordos renovados e vagos para a redução do desmatamento e do gás metano até 2030.

O tema central e que gerou mais expectativas foi reconhecimento do impacto dos combustíveis fósseis e do carvão, colocado na mesa pela primeira vez, com a perspectiva de um acerto para sua eliminação a médio prazo. Da proposta aos acertos finais, a questão dilui-se no texto final para sua redução gradual aos 45 minutos do segundo tempo, depois de intervenções da Índia e China.

Focou-se no artigo 6° do Acordo de Paris, pelo qual os países signatários possam negociar créditos de carbono entre si, a fim de garantir uma redução na emissão dos gases do efeito estufa – o que na prática cria um escudo aos grandes poluidores, que se dão ao luxo de emitir e barganhar um salvo conduto.

A grana envolvida, porém, foi capaz de obscurecer a trama: 167 bilhões de dólares, segundo previsões do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável.

Farsa

Diante de resultados mais expressivos, resta a desconfiança que pode descambar para o descrédito de instâncias como Conferência do Clima, conforme avaliam cabeças pensantes como o líder indígena, filósofo e ambientalista Ailton Krenak Não espero nada desses compromissos da COP26. Esse evento, que tem essa importância planetária, foi tratado de uma maneira muito displicente pelos governos. O fato de 100 governos fazerem isso e aquilo é um número totalmente irrelevante. Deveríamos ter uma cúpula de verdade, dos governos que demonstrassem alguma preocupação real com a situação do planeta. ”

E uma certeza: a falta de iniciativas concretas abre brecha para discursos de tipos negacionistas, oportunistas e tacanhos como Messias Bolsonaro, para quem o evento não passa de empulhação dos mais ricos. “A COP 26 é um local onde quase todos apresentam os problemas para os outros resolverem. Somos os que mais contribuímos para não emissão de gases estufa e que por vezes mais pagamos a conta, mas somos atacados. ”

E assim cristaliza-se a farsa. O que esperar a partir daí?

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