Uma voz ecoa na tropa: “o presidente é pessoa séria”

Está em curso uma pandemia inclemente no país, que dá sinais de agravar-se com a chegada iminente uma terceira onda. São Luís do Maranhão é o novo epicentro virtual da doença com registro dos primeiros casos de infeção pela nova cepa descoberta na Índia.

E o que faz Bolsonaro? Embarca rumo à capital maranhense. Evidentemente não passa pela cabeça de ninguém que o gesto faça algum sentido administrativo ou humanitário. O capitão vai com a missão de atacar o governador Flavio Dino e promover nas ruas a muvuca habitual entre sua horda lobotomizada, que costuma uivar contra vacina a um sinal seu. Jair está em campanha. O capitão resolveu acelerar a corrida eleitoral desde que começou a derreter nas pesquisas, assombração do Lula passou a tratorá-lo no Nordeste e na CPI só toma pau.

No domingo (23) Bolsonaro repete a dose, desfilando em corso pelo Rio com sua falange de motociclistas e escoltado por um aparato de 1 mil soldados da PM — em desfile que consumiu mais de 500 mil reais, segundo dados disponibilizados por economista do Forum Brasileiro de Segurança Pública.

Nessa, arrastou pra cima do carro de som o servo três estrelas da República, que apareceu pra ser saudado pela turba bolsonarista, pelo papel de ilusionista que lhe coube de na CPI a fim livrar a cara de seu chefe. Por fidelidade a Jair, Pazuello, ainda um militar da ativa, se dispôs a tripudiar o regulamento disciplinar do Exército, que proíbe manifestações políticas de seus subordinados.

Parênteses, rápido: em duas semanas o general conseguiu enlamear a imagem dos fardados, que levaram décadas para resgatá-la do pântano no pós-ditadura militar. E por inspiração de seu chefe, que achou um jeito de afrontar o novo comando da Força.

É a segunda vez que a oficialidade tem que lidar com a variante Jair. Na primeira, há 33 anos, por espírito de corpo o absolveram da acusação de planejar ações terroristas, embora o tivessem aconselhado a bater em outras paragens. Aderiu à política e acabou virando presidente. E agora, como vai ser?

Voltando à questão central: o que pode justificar ato de tamanho grau de delinquência? Imaginar ato de campanha em meio a um cenário de tragédia remete à psicopatia, de resto já identificada como traço central de sua persona desde que assumiu o poder. Considerar que ao sabotar medidas de restrição, no fundo, ele está contribuindo para cavar mais fundo o buraco da economia, é tentar imprimir racionalidade à matéria, fator inexistente no universo bolsonarista. A real é que Bolsonaro continua a investir no caos, seara em que ele melhor opera, à espera do sinal redentor da cavalaria americana.

Diante do circo armado, notável é o comportamento de sua base. Arthur Lira, o mesmo que pautou a toque de caixa projeto que dizima a legislação ambiental do país, admitiu que Bolsonaro está nos seu pior momento”, sinalizando que a apólice de resgate que tem em mãos está em tendência de alta acelerada. O general Heleno, do GSI, aquele mesmo que em campanha parodiou Os Originais do Samba (se gritar pega Centrão, não sobra um, meu irmão...) correu pra se retratar com os novos aliados depois de batata ir ao forno. “Faz parte do show político.”

Na CPI, o braço do Bloco no Senado, na falta de teses convincentes ou qualquer ideia de nexo causal pro-Bolsonaro, investe no non sense. O gaúcho Luís Carlos Heinze (PP-RS), agrônomo expoente do agronegócio, que encarregou-se de liderar uma cruzada pró-cloroquina, asseverou em uma de suas intervenções: “O presidente é uma pessoa séria.”

Já seu companheiro de bancada pelo Piauí, Ciro Nogueira, acuado pela PF, em denúncia de propina da JBS em voto pró-Dilma em 2014, manifestou-se em estado de graça com a performance de Pazuellona Comissão, diante da perspectiva de um desastre iminente. “Nós ficamos muito impressionados com o depoimento e a firmeza do ministro Pazuello. Surpreendeu até pessoas que têm admiração pelo governo”.

Irretocável!